Perguntaram ao David Thomas se ele se considerava um poeta.
"Não. A música rock não é poesia pueril vertida em ritmos primitivos. Foi uma nova forma de expressão independente/autónoma dos outros media. Serve para expôr o que existe sob as palavras. Usa uma linguagem hieroglífica, não-linear não-verbal e sem narrativa.
(tradução demasiado livre; em copy paste: Do you think of yourself as a poet? No. Rock music is not naive poetry bolted onto primitive folk rhythms. It was a new form of expression that owed nothing to other media. It serves to express that which is beyond words. It makes use of hieroglyphic language. It is non-linear, non-narrative, non-verbal)
Lester Bangs
1982 New York, NY
Uma fotografia (ou o que se pode arranjar) de Lester Bangs em palco com os Delinquents.
Na contra-capa do Mainlines, Blood Feasts and Bad Taste lê-se:
"What this book demands from a reader is a willingness to accept that the best writer in America could write almost nothing but record reviews"
Quietly, with effort
"I want to go back," Daniel says, quietly, with effort."Where?" I ask, unsure.There's a long pause that kind of freaks me out and Daniel finishes his drink and fingers the sunglasses he's still wearing and says, "I don't know. Just back."
Brett Easton Ellis "Less Than Zero"
Under the Vulcano
As muralhas da cidade, que se encontra edificada numa encosta são altas; as ruas e os becos, turtuosos e arruinados; as ruas, coleantes. Possui uma bela estrada de tipo americano, que vem do norte e acaba por se perder em ruas estreitas, degenerando finalmente num verdadeiro caminho de cabras. Quauhnahuac possui dezoito igrejas e cinquenta e sete bares. Também se orgulha do seu campo de golf e de nada menos que quatrocentas piscinas, quer públicas, quer particulares, de água incessantemente renovada pelas reservas das montanhas e, além disso, de muitos e esolêndidos hotéis.
segundo parágrafo de "Debaixo do Vulcão" de Malcolm Lowry, ed. Livros do Brasil, trad. Virgínia Motta
Excesso de propósito
Uma passagem do livro "O Templo Dourado", Yukio Mishima (a edição da Assírio&Alvim é mesmo dourada, tradução de Filipe Jarro) levanta um problema inultrapassável. Trata a morte do páraco de uma aldeia (no campo). Num breve parágrafo no início do II capítulo, somos/fui confrontado com o ainigma da "missão cumprida com uma fidelidade excessiva: que indo de um a outro ensinar como se deve morrer, e querendo mostrar ele próprio como se faz, foi, digamos assim, demasiado longe e faleceu por engano?".
Tinha uma ideia deturpada do texto. Supunha que lidava com o destino das almas e dos crentes, enfrentando a perda da referência no mundo de cá. Quando hoje reli a folha marcada no livro fiquei surpreendido com o desajuste. A intenção era relacionar o "A Vida Depois de Deus"- a transição do Julgamento para a terra- com a questão concreta, o hiato entre a morte e a substituição. Mas afinal o que está escrito é substancialmente diferente; cito, "muito singular por excesso de propósito".
Raymond Carver
O admirável conto "What Do You Do In San Francisco?" (do livro Will You Please Be Quiet, Please?, Raymond Carver) começa com a frase: "This is nothing to do with me". É um truque brilhante começar uma narração afastando-se da história. Lembra-me o tom circunspecto do "Death of a Disco Dancer, I never talk to my neighbour, I'd rather not get involved", do Smithsonian Institute. Raymond Carver escreve sobre o preconceito de um carteiro, Henry Robinson (que relembro, não tem nada haver com o assunto), em relação a um casal de Beatniks de São Francisco (a mulher veste uns calções justos de ganga branca e não lhe dá troco). A história é muito mais complicada que esta breve consideração e não pretendo fazer "leitura comentada" ou desvendar os pormenores da narrativa. Simplesmente, acho irretorquível começar um texto sobre "prejudice" com "não tenho nada haver com o assunto".
Sublinhados
Um fragmento de vidro escorregou da moldura e feriu-me a palma, cortando levemente a linha da vida. Enquanto fitava a mancha brilhante e procurava o meu lenço, dei-me conta que este era o único sangue que derramara em Chelsea Marine durante toda a rebelião.
J. G. Ballard, Gente do Milénio, Quetzal Editores, tradução de Inês Castro.