Saturday, November 25, 2006

Rai

Fio

Regressava a casa cedo. Para ler. Recolhido no sofá, era envolvido pelo jogo de sombras projectado das palavras. Passado a fio de espada, entregava-se às silhuetas negras que subiam dos livros, dominado pelos espectros que difudiam o medo a cada movimento de página. Uma imagem pálida de tristeza que, soltando as folhas, não libertava a solidão.
Nem sabia o que lia. Comprava os livros num quiosque junto à praia durante os passeios da tarde; as life magazines estavam espalhadas pelo chão da sala sem que lhes tocasse. Era o efeito. A página opaca virada contra a luz. A sombra. A sobra.




Fio

Os miúdos, de saída para a escola, viam-no chegar perto da manhã, pouco passava das 7 horas, miótico, inexpressivo, amarrotado sob o blusão preto de cabedal. Comentavam entre si "tem o coração parado", não reprimindo a surdina e um tom de exclamação, revelando um segredo conhecido de todos. "Não!" - diziam outros - "respira em falso".
A meia luz e o frio turvavam a visão - um efeito de enevoamento muitas vezes atribuído à nebula (por vezes usa-se o vocábulo bruma). O resto do sonho, interrompido pela manhã, era exalado num vapor quente - logo condensado no ar - dissipado pela respiração. Suspenso durante o dia. Raymond esperava por um movimento que o levasse daquela posição, siderado, com o olhar fixo sobre nada, e lhe abrisse a porta do prédio, deixando tudo para trás.




Ulrich a

Há dias recebi um mail que assinalava o pormenor de isto ter perdido o interesse. Entre minudências e cumprimentos, aludia-se ao que bom que era, ao past-iche, etc. É quase certo que tão cedo não regressarei ao presente, remittere ad aeternu !, diante do mar - as ondas ®, mas hoje concedo-me ao mainstream e enfrento um dos mais palpitantes desígnios nacionais: a literatura, ela própria. 'O Jovem Torless' é vinha vindimada, pelo que centro a vossa atenção sobre o Homem Sem Virtude, Qualidades e Tradução, pressão alta e recuperação, jogar no limite da antecipação do Hype (esse sacana). Tudo isto a propósito de uma conversa com o senhor Ulrich, meu vizinho de rua, à saída do minimercado da misericórdia, na qual me dava conta da decisão de criar uma editora de livros. O objectivo do senhor Ulrich era demonstrar que uma casa livreira não estava, obrigatoriamente, destinada às grandes coisas da ribalta e sucesso. Com o habitual discuso incerto, a espaços miudinho, o senhor Ulrich lá ia dizendo que uma coisa dessas (uma editora) nem sempre era dinheiro no banco e, inclusivamente, podia dar prejuízo. A alturas tantas já enunciava as estratégias oblíquas a adoptar: "Os livros editados serão ostensivamente ignorados" - garantia o senhor Ulrich, representando a firmeza no todo da voz; "Os autores serão deliberadamente esquecidos" - etc, etc... propondo actos de selvajaria sobre a biografia dos citados. Os sacos de plástico seguros na mão já pesavam e começavam a garrotar a ponta dos dedos, mas não me despedi sem perguntar: "Senhor Ulrich, considera mesmo que uma editora em Portugal pode evitar o sucesso?"

A meio do texto (assinalado ®) está uma frase (provavelmente mal traduzida e longe do significado original) que corresponde ao nome de um blog - ante mare, undae

Blogarte

Welcome to Elsinore

A propósito de uma imagem, lembrei-me de um post que escrevi há tempos sobre vinhos e música. Tratava-se do desenvolvimento de escala de graduação analógica-sensitiva, em que certos discos, pelo seu sabor, intensidade, teor, quantidade de frutos silvestres e idade da madeira, correspondiam a diferentes marcas de tintos. A ideia acabou por não seguir em frente, muito pela falta dos tão falados fundos de coesão e pactos de estabilidade e crescimento, mas ainda classifiquei uma meia dúzia de discos como Quinta da Leda 2001.

(link: uma imagem de uma garrafa de vinho postada no Welcome To Elsinore)




Bombyx Mori

Formam-se-me algumas dúvidas em relação ao que se vai escrevendo nesta esfera. O essencial desvanece-se no acessório (o que se me afigura lógico) e o significado, encravado no exercício de estilo, não passa daí. O que vale é ir passando por sítios onde a disposição é diferente: entre o trato cerimonioso de um progressivo sistema de links, e o estudo aplicado das regras do verso, segue-se a ordem Servilius, Gaius, Cassius, Brutus e Minucius até perfazer os 23 lenhos. Il Miglior Fabbro, o artífice cumprindo os quesitos da sublimação.

(link: Bombyx Mori)




Solvstäg

O centro da sala é ocupado por uma larga mesa redonda, de pé alto, na qual foi colocado, a acompanhar algumas fotografias sem cor e um candeeiro de louça branca pintado à mão, um bule com o chá de tília que a Sra. Francis teve o prazer de saborear ao longo da última meia hora, o que corresponde sensivelmente a quatro chávenas de vinte centilítros. A ingestão, bem como a chuva, permitiram-lhe entregar-se à solidão do sono, que sempre a agradou, e reduzir a intensidade dos batimentos cardíacos que teimavam em incomodar. A senhora adormeceu facilmente, não sem antes ligar o aquecedor eléctrico e pô-lo junto a si, de modo a desentorpecer o seu cansado corpo e fazer esquecer o tempo chuvoso que desgasta o telhado da sua casa.
Não, não é Richard Ford; Solvstäg no blogspot.

(link: Solvstäg)




Memória Inventada

Standing Ovation, Aplauso muito demorado, de pé

(link: episódio 100 da série BnO, no Memória Inventada)




Post oito e meio

Um blog resiste a tudo. Ao desinteresse, à desinspiração (o lousy posting), à falta de tempo. Considerei a hipótese de entrar em Blog-OffTM (diferida) ou de optar pela pausa (protelada). De qualquer forma, e depois do terceiro post consecutivo que vai para os drafts, peço um Time-Out®.

(links: Welcome to Elsinore e Bombyx Mori)




Acknowledge (or whatever) Yourself

Iguarias da nosso Blogosfera: "querias migrar, hein?! chuvinha, é do que precisas!"

Provavelmente referindo-se ao mau tempo que complica os dias.

(link: post da margarete do Acknowledge (or whatever) Yourself)




There's Only 1 Alice

perdi-me / não sei se me segues pelas ruas / que inventaste para mim

Desolação seguida de esperança. Realidade misturada com ilusão e fé.

(link: poema original no There's Only 1 Alice)




Triângulo equilátero

"Vive rápido, morre cedo e deixa um blog bonito"

3 ou 4 coisas em que o autor deste blog não acredita.




Actualização

Work Hard / Play Hard

a versão blogger's delight: Work Hard / Post Hard




Keaton

Um daqueles blogs que faz falta e se lamenta o fecho (Set 2005) colocava a questão mais intrigante do cinema mudo: Keaton or Chaplin?

Não sei se os autores deram a resposta (normalmente é na edição do dia seguinte) mas por mim a questão encerra-se com um peremptório Keaton, fundamentado apenas num filme
The Playhouse, public domain, aqui, por 657 mega

(link: blog Feu la Culture)




Cocanha

Land of plenty, land of fun
Depois de um ano, fui finalmente ver o significado de "cocanha". Abundância.

(link: Cocanha)




Lamento blogger

Lamenta-se o encerramento de um dos poucos blogs em pt. Era no 2º andar direito. Da última vez, segui-lhe o rasto (link, portanto) numa caixa de comentários de um post improvável, num blog que nem tinha muito haver. Suponho que agora não será tão fácil.

(link: blog 2º andar direito)




Acknowledging

Miguel Cardina d' A Cidade Vaga (grande nome) teve a gentileza de linkar o cinzel, proporcionando-me mais visitantes hoje que em 2 anos de vida na blogosfera. Muito obrigado!

(link: Cidade Vaga)

Música - Refeição

Mote

Mais um almoço na Real Academia das Artes. Um verdadeiro summit de inteligências excessivamente diferenciadas na linguagem rock, inconclusivo, onde ninguém sabia o significado dos versos "the streets where Lola played - verry sexy, very sexy, okay okay".

- Mas procuraste no Google?
- Claro!
- Também não sei.
- O original é de uma tal de Inger Lorre. Lembras-te de uma banda, as Nynphs?
- Uma banda de los angeles?
- Sim. Foi a gaja que escreveu a música.
- A gaja tinha um hit, lembro-me do vídeo.
- Chamava-se "Sad and Damned". Meio gótico, meio drogado.
- Quando chegar a casa vejo se está no tube




A situação

- E atão? Vamos almoçar aquela cena nova?
- Ohpah, não. Vamos mas é comer um bife à cervejaria.
- Umh Umh. É melhor. Sempre é certo.
- Pois! Pa'qu'é'que um gajo há-de estar a inventar?

Foi esta discussão situacionista que me levou (mais o meu mano) à cervejaria comer um belo bife com manteiga de alho. Não é para me gabar mas, são 2 da tarde de sábado e já ouvi o "Postcard of a Painting" 2 ou 3 vezes e começo a ponderar se os Maximo Park não serão mais genuínos que os Libertines. O meu Irmão diz que eles imitam os Smiths (os riffs são mesmo meio copiados); eu penso que emulam os Père Ubu, apesar de não conhecerem os discos. Enfim, o "Postcard of a Painting" é uma música porreira para ouvir no carro depois de uma ingestão maciça de gordura (desconfio que nem absorvi o café, tamanha é a bulha entérica entre enzimas e lípidos). De resto, aviso que o Internet Archive disponibilizou o Scarlet Street, muita neve cai na serra e, se a minha escrita não voltar ao normal, este blog deixa de fazer sentido. Continua, mas deixa de fazer sentido.




Grandes Coisas

Ouvir, sem estar a contar, os acordes do Happiness Is a Warm Gun, depois do jantar, saídos de uma guitarra sem amplificação, e começar a cantarolar o refrão até chegar ao "I know no one (ever) can do me no harm". (acrescento sempre "ever" ao original).




Cambridge

O almoço estava realmente bom.
A divisão do lombo foi acompanhada de referências históricas a vedetas do rock comissionista, vendettas da real politik e vedações do ilusório. O primeiro momento foi a proposição: "pah, o fifth man de cambridge era o Syd Barrett" - aplausos, ovação - a provar que a máquina do almoço dá, realmente, pancadas (entre vírgulas para escapar ao authoring).

O segundo momento foi a brilhante interpretação do clássico "bem, tah no ir", lacónico, brevemente aborrecido e laico.




Nina Nastasia

São poucos os motivos válidos para sair de casa: a família, o trabalho e eventualmente um almoço com pessoal que realmente perceba de cultura rock, de preferência em restaurantes nos arredores de moscovo ou cervejarias em centros comerciais em deconstrução. A zona da cidade com rendas mais baratas foi preenchida por emigrantes de leste. Num desses repastos, depois de falarmos sobre o desespero e de como a realidade se torna ínvia e disforme, ao encerrar na necessidade de sustento da família a contradição de milhares de quilómetros longe de casa, desviámos a conversa para a Nina Nastasia e discorremos sobre a diferença entre a capa da edição original do Dogs (Socialist Records, 2000 0012 - cerca de 500 exemplares, milhões de cópias) e a re-issued print na Touch and Go (2004, TG246). A primeira é uma coisa desataviada, com um padrão entrançado arroxeado, violáceo, com a informação impressa a cinzento, lettering type writer: "Dogs", hífen by Nina Nastasia na linha de baixo. A re-edição da Touch and Go pode-se considerar luxuosa. É uma fotografia da Nina Nastasia segurando um copo meio cheio de um líquido trasparente (serve para água, vodca e bagaço), em pose, fixando a câmara, com uma expressão a meio caminho entre o hostil e o amargo e um vestido preto (ponteado a branco) decotado em V. Está um gajo ao lado (Kennan Gudjonsson?) a olhar para qualquer coisa que tem na mão. Não é definitivamente a fotografia mais bonita da Nina Nastasia (ver a biografia na Southern Records, a entrevista na Discorder ou a crítica do disco de tributo John Peel na Spoiled Victorian Child). O enquadramento é branco com a informação a negro e em relevo (classe!) "Dogs" by Nina Nastasia. O inlay tem as lyrics (magníficas, parece um blog dos bons) e os pormenores estão, distintos, na última página: a senhora Nina Nastasia toca uma Epiphone Riviera e uma Martin 0017 de 1962, Gonzalo Muñoz toca uma serra musical Luthier de la Banlieue Parisiene, Dave Richards um baixo upright c 1890 e Kennan Gudjonsson um piano Nelson & Wiggin c 1901.




Anton Newcombe

A discussão ao almoço centrou-se nos Brian Jonestown Massacre e na eterna questão: será o Anton Newcombe um génio ou, simplesmente, drogado. O meu interlecutor, um dos grandes instrutores do Rock a operar nos cafés e restaurantes de Portugal, pendia para os problemas de adição do lead singer; eu, num registo mais pachólico, lá dizia que as condições não eram mutuamente exclusivas (choco de todo, portanto). Os jaquinzinhos, no fundo do prato, não diziam nada, tal era o apetite e celeridade de ingestão. Está claro de ver que a conversa não chegou a conclusão nenhuma e, aproximando-se as duas da tarde, rematámos com o cordial “bem, está na hora".





A pretensão

Há uma parte em que percebo: let's pretend we don't exist / let's pretend we're in an article [?]
Claro que não podia ser, e os versos corrigidos são: let's pretend we don't exist / let's pretend we're in antarctica [!]

É a folgança de deslindar as intrincadas tramas pop e os mistérios politeístas do pessoal das lyrics. Claro que me custa sempre muito menorizar o memorizado; afinal de contas foi uma viagem inteirinha churrascaria-casa a trautear o let's pretend we're in an article, imaginando antigos artigos de lei onde os elementos da música se inscreveriam, relacionados à la minute com o "ostracismo" da prefeitura de Atenas. Let's pretend we don't exist / let's pretend we're in an article era bem esgalhado, não tenho dúvidas, mas o equívoco, como sempre, fica longe da realidade. Frio, muito frio: tal qual a antártica que começa aqui (seja lá o que isso for).

errata: o primeiro sujeito do post é uma música de uma banda moderna; o último é a tradução do título Antarctica Starts Here, J. Cale, Paris 1919 (o título; que não o local ou a data de uma conferência de Paz).




Faixa

- Então, o que é achas?
- Pah, não sei. Fico sempre muito indiferente a estas músicas que não desenvolvem.
- Pois. A música não vai mesmo passar disto. (pausa) Mas o álbum é diferente... vai evoluíndo entre cada faixa.
...

O problema de falar de música num fim de tarde com o sol a dar de frente. Acomodados à lassidão, os críticos resvalam para a ficção - essa demanda - contemporizando com texturas alegóricas, conceptualizando por aí, sem grande critério. Por bem, poucos destes devaneios serão copejados para posts.

Música - Ressecção

Me: myself in a dream

I met myself in a dream, and I just want to tell you,
Everything was alright.
Hey, now, baby, I'm beginning to see the light.

(Lou Reed)




Apropriação

Since the soul of Soledad Miranda had captured the mind of man

(John Cale)




Repeat and fade

and you might say it's self-indulgent you might say its self-destructive but, you see, it's more productive than if i were to be healthy

(Amanda Palmer, dos Dresden Dolls, excerto da letra da música Bad Habit)




Time lines

"So take me back to constantinople
No, you can’t go back to constantinople"

(da letra da música Istambul (They Jimmy Kennedy and Nat Simon)




maybe in the next year

Love
Peace
and
Harmony

Oh, very nice Very nice Very nice Very nice ...But maybe in the next year

(Death of a Disco Dancer, Smiths - Morrissey)




Rock!Steady

A equipa encontra-se no balneário. Cerram os punhos, extendem os braços e gritam a divisa que os protege durante o jogo:

It's so simple and so stupid
yet so steady are you ready
i am not

(Lambchop,Nashville, Tenessee)




Oh my golly!

Yo soy un playero pero no hay playa

(Black Francis in Oh My Golly)



Buddy

Woo-ee-oo i do just like buddy holly
Oh-oh-oh, and i'm never tired or bored

(Weezer)




Telephone Call from Istanbul

Cópia de um texto do "Tom Waits Supplement: Grand Weepers and Grim Reapers". Palavras atribuídas ao próprio Tom Waits:

"Started as a title, then became just a junkyard for uh... one banjo and drums. Got a little eastern slant on it. I don't know, beyond that. Frank is just started to plummet here; things are starting to fracture a bit"

Nesse site, Bill Forman descreve o solo de Farfisa como "catapulting the listener into some hellish Turkish rollerskating rink"




(End of) Traveling

O final do percurso. Will Oldham, mais calmo canta
i will be happy to close my eyes on new places, or half close 'em with new faces



Resumo

elle fluctue de ça et là / les parties qu'on ne voit pas / c'est pas grave - ça reviendra / et quand elle est plongée / dans la froide obscurité / donne l'impression qu'elle se noie / bien vite reprend pied

(Laeticia Sadier)

Música - Reversão

I'm set free (no presente)

É a música mais bonita dos Velvet Underground. O leitmotif não me interessa. É suficientemente vaga para poder ser adoptada por um executivo descontraído durante o golf, uma família unida a caminho do algarve ou um estudante feliz no final da época de junho-julho. Idealmente para usar de manhã, antes da saída para o trabalho, depois de um bom pequeno-almoço e das notícias na televisão.




Mero

A tradução epistemológica das sondagens, après Nicholas Grotte: Father, why are all the children weeping? / They are merely crying son / O, are they merely crying, father? / Yes, true weeping is yet to come. Apetecia-me voltar a escrever sobre bom senso e economia, a sensibilidade ímpia da London School of Economics and Political Science. Mas, perdi o fôlego para a postagem de intervenção: mexo-me melhor na ilação e citação, o chamado futebol apoiado de passes curtos, colado ao soalho. "Merely Crying" é pungente e aflitivo - nem imagino o que ainda pode estar para vir.




Mark Linkous

There will come a time gigantic
waves will crush the junk that I have saved
when the moon explodes or floats away
I'll lose the souvenirs I made


la la la

I lay down on the grass and let the insects do their thing.
she covered me with wings and held my head and said 'poor thing'.

Mark Linkous


A simplicidade atinge-se assim. Expandindo a pronúncia em gigantic, recolhendo ao monocórdico em waves e continuando até la la la.




Starfire

Aqui há uns tempos fazia um esforço desgraçado para vir a casa à hora de almoço para ouvir o "Starfire" dos Low. Era um shotzinho a meio do dia que me dava forças para continuar. Tinha o sonho espacial de planetas limpos, extraterrestres, naves e colónias longínquas. A aspiração de pôr a tralha na mala do carro, partir e deixar a terra em pousio. A música está na jukebox do http://www.chairkickers.com/. E não, não é sobre uma estação de rádio de um amigo do Alan Sparhawk. É uma volta de ten thousands miles to go before i sleep sossegado.

i'll load the back and you can drive
broken bodies all the time
let's take a ride
starfire tonight
ten thousand miles away
away

Alan Sparhawk





cÉU

Esta manhã, durante os 10 minutos em que esperava o efeito do café no sistema, carreguei na tecla 5 do comando da aparelhagem e o resultado foi o Little Arithmetics a sair pelas colunas. É um truque muito porreiro. Com a tecla 1 e 5 consegue-se o Wake Me Up Before I Sleep e um bocado do cÉU na terra. A versão dos Walkabouts (um dia destes falo do mítico Man from Reno, Scott Walker et al.) não está mal, mas o original.. é qualquer coisa.

...I'll promise that I'll concentrate
On only the last frame
Cover only one sound
Some kinda sweet...


De manhã é mesmo assim.

Não há nada mais europeu que Deus. Não imagino o outro Berman a escrever sobre religião às sete e meia da manhã, até porque é um Silver Jew, não é Belga ou Holandês, e não se chama Barman. E quando me dizem que os leitores de Silver Jews não conhecem a poesia avantgard do David Berman, eu respondo "tá bem", mas penso que não há-de ser bem assim. Porque This is the voice of sand, / the sailors understand / There is far more sea than sand / There is far more sea than land. De qualquer forma, os leitores de Silver Jews vão ao clube de vídeo, vêem o Any Way the Wind Blows (e até gostam) e percebem a parte ambient-drum'n'bass dos segundos 10 minutos do dia. E concentram-se numa frame e dizem coisas como "Não há nada mais europeu que Deus" porque têm a certeza que sim. E encomendam o Tanglewood Numbers para continuarem o dia.









Come In

Come in Come in For one last dinner That I will make you

Come in Come in It is a small one For I am no cook

You have a long way Where you are going No longer welcome
And I am happy Yes I am happy You will be leaving Things will be changing
For you

You have done much for me But now you're leaving It's back to Egypt
That you are going They are not family They are not friends But a false history
And you aren't sorry

Come in Come in Or am I silly For saying such things Am I implying
That you must come again

Hoje voltei a ouvir o Come In. A seguir ao Trudy Dies (uma música horrível que não merecia as chord changes mais tristes do sadcore), quase em repeat. Claro que me lembrei do vídeo que passava num programa do canal Viva! (acho que tinha ponto de exclamação). Era uma casa em miniatura (em cenário - não era fechada) com uns bonecos dentro que construíam uma história. Por ter decifrado o enredo num vídeo patético, nunca pensei nesta refeição como a "Última Ceia" (a interpretação aceite pela generalidade dos estudiosos da obra de Will Oldham). Para mim será sempre o Cantar de Emigração; a compreensão dos que sentem a necessidade de deslocação; a justificação da coragem empregue no acto de abandonar.

Acabo sempre por valorizar a resignação dos último dois versos e repudiar o gesto de renúncia dos que mudam. Atribuo um sentido ímpio e demasiado severo a esta música. Julgo a iniquidade da culpa final e exagero derramando-a (inapelável) sobre as derradeiras unções, quando não não existe espaço ou margem para redimir os defeitos da vida. É demasiado Velho Testamento para uma música; mesmo que seja sadcore; mesmo que possa escrever um livro a partir de 10 linhas, um vídeo e a voz do Will Oldham.




Bill Callahan

Esta semana o Bill Callahan vem tocar a Portugal. O Blitz (que não comprava há uma série de tempo) tem um artigo realmente bom sobre o evento. De todos os discos Lo-Fi Self-Obsessed que tenho os do Smog são os mais difíceis. À excepção do último (um instant classic), arrependo-me quase sempre de os comprar. Penso que o gajo endoideceu de vez. Passado uns meses, já estou satisfeito e coloco-os nas prateleiras que ficam mais à mão. O (Smog) é um dos maiores. Num Celebrity Death Match perdia com o Kurt Wagner mas seria tão renhido como o Triple H vs Batista na última Wrestlemania.
É engraçado que exista uma convergência para o vocábulo "fetiche" quando se descreve a música do (Smog). Luís Guerra no tal artigo do Blitz escreve "fetiches incompreendidos"; no All Music Guide falam de "bizarre fetishes". E as Q, PitchforMedias não se desviam muito dos epítetos e prenúncios de morte, obsessão, falha, perturbação, malogro e o diabo a 4. Os incautos dizem que o Smog é divertido ("Dress Sexy at My Funeral") mas esquecem que o Smog é "4 real". Na sua música, Bill Callahan não dá garantias nenhumas de diversão que não sejam as manobras militares. E é por isso que o Smog é um dos maiores.
Um amigo meu, o maior especialista em Smog que conheço, diz que o Red Aplles Falls é undisputably o melhor disco do Bill Callahan. Eu alinho pelo A River Ain't Too Much to Love (nem que fosse só pela capa). É mais agradável; estabelece uma espécie de tréguas com o interlocutor. Afinal de contas, Bill Callahan canta que um rio tanto fertiliza como arrasa com a várzea. E tem o Say Valley Maker:

With the grace of a corpse
In a riptide
I let go
And I slide slide slide
Downriver
With an empty case by my side
An empty case
That’s my crime

And when the river dries Will you bury me in wood Where the river dries Will you bury me in stone

So bury me in wood And I will splinter Bury me in stone And I will quake Bury me in water And I will geyser Bury me in fire And I’m gonna phoenix


Em Outubro vai fazer uma tour com a Joanna Newsom. Nós não temos essa sorte. Uma versão Smog do The Book of Right-On faria-me mudar todos os afazeres para ir a um concerto a Lisboa a uma Segunda-Feira.




Two Pale Boys

Não tendo assunto e apetecendo-me postar qualquer coisa, vou escrevinhar sobre a versão do "Surfer Girl" que o David Thomas e os Two Pale Boys tocaram ao vivo na MTV. Não estou a confabular nem em delírio. Durante 8-9 minutos a MTV esqueceu tudo e passou o showcase dos Pale Boys.

O David Thomas, enorme, de fato, mais Captain BeefHeart que o próprio, cantou preenchendo o espectro; desde a Soberba à Graça, cruzando todos os poderes da Igreja da Geografia do Som. Acabou em desespero, diria-se drunk at the pulpit, mas redimido. No final apenas gritava, chorava. Por vezes tocava o melodeon produzindo um som melado; porque a voz era apenas a projecção de uma gruta funda, demasiado escura, demasiado abandonada. Passo a citar o insuspeito The Financial Times "Grown men cried" - acerca de um concerto na Escócia por essa altura. Nota para memória futura: citei o The Financial Times. Substituía a Surfer Girl original por uma Suffer Girl e prometia "We could ride the surf together; While our love would grow. In my Woody I would take you everywhere I go. Do you love me do you surfer girl". Lancinante, aflitivo.

O Andy Diagram (gorro vermelho num uniforme madchester) é um dos maiores e vou direito ao assunto: o gajo passa o som do trompete por efeitos de eco-delay, reverb, harmonizers, filtros e por vezes um sample. (c.q.d. é o maior). Não consigo imaginar um controlador mais poderoso para construir landscapes e texturas. No "Surfer Girl", que vos falo, nem recorreu ao layering. Tocou o solo mais amplo que alguma vez saíu de um horn (apenas a ressalva de existirem muitos estilos musicais que desconheço). Foi magnânimo, imparável. Deixou tudo para trás. Sendo a força das notas que se sucediam suficiente para formar um novo mundo, o Andy Diagram, perfeito, modulava os filtros e estendia os delays para que esse novo mundo surgisse imaculado. Durante muitos minutos.

Keith Moliné apresentou-se com uma boina de ir cortar madeira. Segurou a música com a sua guitarra Twang em grande estilo. Tocou os acordes de forma infalível (como diz um amigo meu quando quer descrever segurança- "é dinheiro no banco"). Não inventou (o Andy Diagram estava livre) e foi avançando na sequência que em tempos o Brian Wilson determinara.

Lembrei-me desta música porque o meu Irmão arranjou uma gravação de um concerto da golden age dos Two Pale Boys.

Há um entrevista muito interessante aqui http://www.ubuprojex.net/archives/pbvue.html

Nota. A versão do "Surfer Girl" que vem no Raygun Suitcase (Père Ubu- 1995) é porreira; mas não pode ser confundida com a versão do David Thomas and the Two Pale Boys



Arise, Therefore

A Obsessão tratada por Will Oldham, ainda nos tempos dos Palace Music. O Arise, Therefore começa com how could one ever think anything's permanent e a partir daí é downhill para lado nenhum. A insistência no Poder e nas Usuras até à dissolução (uma palavra sinónima, derivada de "solução", no vocabulário de Oldham).




O jogo de sueca

O jogador, para mitigar a perda, serviu-se daquele excelente Quinta da Leda 2001, degustando o desgosto, e puxou o cigarro para o canto esquerdo da boca, armando um ar circunspecto de quem disfarça o pânico contando o jogo. As naves que construia não serviam para ganhar; vogavam na maré baixa desfazendo-se ante as undae do mare.

Um dos adversários, imperturbável, com os dedos metálicos frios, via as limalhas de ferro macio jogadas sobre a mesa do jantar. Eram as cartas que deslizavam sobre a toalha de papel, cheia de nódoas. Não tinham sabido servir-se da cabidela.

com partes decalcadas de uma das grandes músicas em pt: "Sete Naves" Letra de Rui Reininho.




Michael Hurley

Oh the werewolf, oh the werewolf - Comes a steppin’ along
He don’t even break the branches - Where he’s been gone

He goes out in the evenin’ when the bats ’re on the wing
An’ he’s killed some young maiden before the birds sing

For the werewolf, for the werewolf - Have sympathy
’cause the werewolf he is someone - Just like you an’ me

Once I saw him in the moonlight when the bats were a flyin’
All alone I saw the werewolf and the werewolf was cryin’
Cryin’ nobody, nobody, nobody knows
How much I love the maiden as I tear off his cloths
Cryin’ nobody, nobody, knows of my pain
When I see it has risen that full moon again

For the werewolf have pity, not fear, an’ not hate
’cause the werewolf might be someone that you’ve known of late

And only he goes to me, man this little flute I play. All through the night, until the light of day, and we are doomed to play.

Michael Hurley


Conheci a música pela versão da Chan Marshall e passou algum tempo antes de saber que Werewolf significa Lobisomem; e demorei a perceber o crime inscrito nas lyrics(na versão do You Are Free a letra não é tão explícita). Consegui ouvir o original há uns dias e fiquei impressionado. Gosto muito do verso "He don’t even break the branches - Where he’s been gone". E da maldição de tocar até à luz do dia. É uma música muito bonita e o singingsongwritting não é simples. Não me lembro de alguma vez ter lido uma letra que falasse de piedade. Possivelmente o Johnny Cash raspou o tema no Hurt. E o Bad Seed repete-o com demasiadas palavras para formalizar a estética (não conta). A piedade invocada por Michael Hurley é um acto generoso e inconfundível com o juízo ou muito a menos condenação, indefinida, sentida sobre a própria indulgência. Era mesmo uma forma diferente de ver as coisas; é difícil imaginar os dias da mão aberta, do livre arbítrio e da vontade incondicional. Michael Hurley precisa de um press release a acompanhar um disco de 1998 quando em 1960 já fazia parte da Greenwhich Village.




O primeiro disco do ano

O primeiro disco que ouvi este ano foi o Tanglewood Numbers (e a primeira música o Punks in the Beer Light). Hesitei muito antes de carregar no play. Foi a indolência (vulgo preguiça) que me impediu de levantar da cama para ir buscar o Superwolf ou o A River Ain't Too Much to Love. Claro que o disco dos Silver Jews é vintage, mas, como obra poética, será sempre inferior.




The Carny

A música não pára realmente. Mas há um momento no The Carny em que o céu e a terra ficam quietos: And the carny had a horse, all skin and bone, a bow-backed nag, that he named "sorrow". Depois regressa tudo ao normal (aproximadamente normal, a música ainda vai a meio).




Peter Laughner

Leio livros para adormecer. Ontem peguei no "Psychotic Reactions and Carburater Dung" uma colecção de escritos de Lester Bangs (génio fundador do estílo literário crítica rock). Teria muitas dúvidas se me dessem a escolher entre o talento do Lester Bangs ou do Sterling Morrison. Não sei mesmo.

Reli e reli a elegia escrita ao amigo Peter Laughner, o primeiro guitarrista dos Père Ubu (gravou 30 Seconds Over Tokyo, Heart Of Darkness, Final Solution e Cloud 149 para além de uma carreira com os Rocket from the Tombs). Um erro pois tornou-se-me difícil conciliar o sono; (estava preocupado com outras coisas).

"Later on he reminisces about his college days: "all my papers were maniac droolings about the parallels between Lou Reed's lyrics and whatever the academia we were supposed to be analysing in preparation for our passage into the walls of higher learning. 'Sweet Jane' I compared with Alexander Pope, 'Some Kind of Love' lined right up with T.S Eliot's 'The Hollow Men'..."

Mais tarde, à medida que Lester Bangs não questiona e não se penaliza pelo percurso descendente de Peter Laughner, introduz a figura do alibi:

"Peter Laughner had his private pains and compulsions, but at least in part he died because he wanted to be Lou Reed. That certainly was not Lou's fault; it was Peter's. Though he was a casualty of times, he brought it all upon himself"
Como um desaparecido em combate, no cumprimento do dever. Um mártir, um sacrifício humano da religião rock.

"Peter's death was the end of an era for me - an era of the most intense worship of nihilism and deathtripping in all markeatable forms"




The Bewlay Brothers

O estudo da música popular conduz-me, de quando em quando, a locais tão remotos como os grupos de discussão sobre o significado da letra do The Bewlay Brothers. Existem inúmeras cogitações e asserções alternativas da interpretação, razoavelmente consensual, que o texto aborda a impressão/decalque provocada pela esquizofrenia de Terry Burns, meio irmão, no espírito de David Bowie. Assim, e a partir do nome da tabacaria que fez parte da sua infância, é construído um poema delirante, intencionalmente improvável e a maior parte das vezes assustado, dominado pelo medo. Outras versões, mais ou menos fastidiosas, incluem rituais de mutilação e outros sacrifícios em solo consagrado, são quase sempre mirabolantes e irrelevantes.

"He's chameleon, comedian, Corinthian, and caricature" resume o jogo de espelhos, multiplicidade, como em "doppelgänger", um conceito sci-fi de existência simultânea de um mesmo átomo em dois sítios, "an exact but usually invisible replica", percorrendo o mesmo caminho. Faz sentido; e é tão razoável como a assinatura de Bewlay Brothers nas produções e "publishing".




Arise, Therefore

I watch things painted on public walls, now
But I see other things as well, behind
But right fuck in front of my spirit is how
The real road's laid out in a line

"Kid of Harith", música 5 do Arise, Therefore. (Palace Music)

Will Oldham, nesta fase com uma escrita confusa, quase indistinta da linguagem corrente, inventa uma possibilidade desferida em "pode alguém ser quem não é?". Dos melhores momentos do método Oldham. Questionar e exemplicar, limitando o vocabulário aos "how" repetidos.




Iron & Wine

Será o Samuel Beam sadcore?
Sendo um purista digo que não - falta-lhe a Tarnation necessária. O códex estético da mui nobre arte é muito preciso para admitir desvios superficiais. Mesmo que o resultado seja um disco melhor.
Escolho os discos do Iron & Wine para ouvir enquanto leio o "Debaixo do Vulcão", sinal de grande relevância, por um qualquer instinto que espero ter definido no final deste tarde. Mas, e vou adiantando, não me parece próprio de um músico de sadcore escrever um epitáfio; mesmo que seja um poema intocável:


Will you say when I’m gone away
"My lover came to me and we'd lay
In rooms unfamiliar but until now"

Will you say to them when I’m gone
"I loved your son for his steady arms
We both learned to cradle then live without"

Will you say when I’m gone away
'Your father’s body was judgement day
We both dove and rose to the riverside"

Will you say to me when I’m gone
"Your face has faded but lingers on
Because light strikes a deal with each coming night"

Each Coming Night por Samuel Beam (Iron & Wine, Our Endless Numbered Days, Sub Pop)





Arise, Therefore

Há pessoal que se mete a caminho de Dakar; eu prefiro ir buscar discos já meios esquecidos. Cumpri hoje a terceira etapa no deserto Arise, Therefore. Não foi como se estivesse em Nouakchott (o disco é incomparavelmente mais frio e chuvoso); e não corro contra nada (esporadicamente o tempo, o mau entenda-se). O gps continua sem funcionar, pelo que sou obrigado a seguir os mapas celestes e confiar em céus limpos de fácil leitura. Afinal de contas, Mogadíscio fica bastante fora de mão e queria começar o rally "School of the Flower", dos Six Organs of Admittance, o quanto antes. O pior mesmo é o tédio: são muitos quilómetros seguidos de areia, ar e argon (número 18 da tabela periódica, elemento que não serve para nadinha). How can no final thing come, diz o Will Oldham, grupo sanguíneo desconhecido e encarregue da navegação.

O postador reconhece este texto como profundamente irrelevante, mais inconsequente que o argon. Foi sua opção carregar no quadrado "publish post", e desta forma manter a coerência redatorial, porque, regra geral às onze e tal da noite, gosta de escrever meia dúzia de linhas para pôr no blog.




Os discos certos

Não é de forma impune que me ponho a falar de música electrónica ambiental - censuro a minha falta de conhecimento do assunto (tenho a sorte de me emprestarem os discos certos). A emissão segue dentro de momentos com a habitual programação low-fi, mas antes gostaria de postar 2 ou 3 coisas sobre o Ambiant Otaku (Tetsue Inuoe). A descrição lê-se no AmbientMusicGuide.com: If there's such a thing as softcore techno, this is it. É um disco valioso (as edições de 1994 são leiloadas por 100 dólares), especial-espacial, de exploração-contemplação. Da mesma forma que não faço uma observação decente numa galeria, também não consigo objectivar a audição do Ambiant Otaku. Provavelmente existirá uma relação entre os planos de tinta nas telas, e a sobreposição de sons nas faixas do disco.
Para travar os exageros e desmandos em torno da primeira edição (limitada), foi lançada em 2000 uma nova série, com a referência AW 017, sem limite do número de exemplares e com um inlay diferente ("Upon seeing Ambiant Otaku's cover, you anticipate a more spiritually-oriented album", no site 2350.org). Otaku, conforme explicado por Inoue numa entrevista, significa "nerd, a collector. In Japan, it's used as a negative term"; quase simbólico.




She's Good Enough to Be a Real Actress

Here’s room five four six, It’s enough to make you sick
Bridget’s all wrapped up in foil, You wonder if, She can uncoil

Here’s room one fifteen, Filled with sm queens
Magic marker row, You wonder just, How high they go

Here’s pope dear ondine, Rona’s treated him so mean
She wants another scene, She wants to be, A human being

Pepper she’s having fun, She thinks she’s some men’s son
Her perfect loves don’t last, Her future died, In someone’s past

Dear ingrid’s found her lick, She’s turned another trick
Her treats and times revolves, She’s got problems, To be solved

Poor mary, she’s uptight, She can’t turn out her light
She rolled susan in a ball, And now she can’t, See her at all

Drop out, she’s in a fix, Amphetamine has made her sick
White powder in the air, She’s got no bones, And can’t be scared

Here comes johnny bore, He collapsed on the floor
They shut him up with milk, And when he died, Sold him for silk

Here they come now
See them run now
Here they come now
Chelsea girls



Chelsea Girls (Lou Reed, Sterling Morrison)


A música foi composta por Sterling Morrison e Lou Reed e originalmente cantada pela Nico. A introdução é construída em torno de uma progressão de acordes menores que anunciam o desencanto e denunciam a natureza estranha da voz da Nico. A pronúncia ostensiva acaba, sobre os meus ouvidos, por superar a harmonia triste e a escala dorian percorrida pela flauta: realça todo o desenraizamento e alienação dos moradores do hotel chelsea. Singulares pelo sacrifício, dor e mutilação.

Friday, November 03, 2006

O Ambiente

Biblioteca Geral

Há dias a frase "ofício de viver (a edição mais antiga)" recordou-me uma tarde numa biblioteca. Reparei no detalhe "a edição mais antiga" não por questões formais (completaram o diário na edição recente) ou de memorabilia-collector's item, mas pela impressão que fiquei da leitura da edição "antiga" desse livro sem consolo, num espaço desolado, perfeitamente antigo, ele próprio sem grande consolo e desproporcionado. Da mesma forma que o autor não se sentia designed for life, well suited or fit, o edifício também não era dimensionado para a minha vida.

Conheço 2 bibliotecas em Coimbra: a Municipal de que guardo as melhores sensações, agradável, "contemporânea" e onde requisitei grandes livros. E a Biblioteca Geral da Universidade onde fui UMA vez. Não passa de um edifício austero, maciço e sombrio. As paredes e os tectos, levantados até grande altura, enchem de frio e insignificância os visitantes (como em "That building’s so tall and it makes me feel so small, That I might get lost and simply disappear"). Lembro-me que, como o restante campus universitário, não contemplava a luz solar - mas provavelmente até tinha janelas enormes e clarabóias resplendorosas e era eu que estava de má vontade. E tinha demasiados livros. Prateleiras, estantes, as tais paredes levantadas a grande altitude, cheias de livros. Todas as pessoas e edifícios têm que saber quando parar; aquele sítio, por exemplo, devia ter deixado de aceitar livros, obras e afins (sem fim) em 1840. De qualquer forma, entrei e requisitei o livro que não existia na minha biblioteca municipal. O sistema de empréstimo era demasiado complicado, de modo que me sentei num dos seiscentos mil lugares vagos. Não admiro a obra de Cesare Pavese ao ponto de entrar em transe litúrgico: aquele livro, naquele edifício era insuportável. Nunca tinha interrompido a leitura fosse do que fosse por motivos de intolerância; muitas vezes por tédio, aborrecimento, sono, falta de tempo etc. Mas por não poder suportar o peso de um ambiente foi a primeira vez. Insustentável. Lembro-me de apagar um candeeiro (durante o dia ler com luz artificial é um contra-senso; a não ser que se viva na Islândia), verificar que o livro acabava mesmo como diziam que acabava, e ir-me embora para locais tropicais (o Samambaia ou o Tchandjae do outro lado da cidade).

Comprei a edição recente da Relógio d'Água (2004) e a experiência de leitura no sofá da sala decorreu sem complicações. Não houve intercorrências e cheguei ao fim sem problemas.




Eclipse

Perdi o eclipse da Segunda-feira que passou (perder é mesmo o termo que quero usar) mas tenho a ideia de já ter assistido a um fenómeno semelhante há meia dúzia de anos. Não percebo absolutamente nada de astronomia e posso estar a dizer uma grande asneira mas, efectivamente, passou-se qualquer coisa entre o sol e a lua quando estava a estagiar em Ljubljana, Eslovénia. E, como andava tudo com a paranóia de óculos e filtros para proteger os olhos, deduzo que terá sido mesmo um eclipse. Passou-se em 199? no verão em que os Blondie v2.0 arrasavam as disconights e a Britney Spears era mais ou menos uma novidade (o "hit me baby one more time" foi a primeira música que ouvi quando liguei um rádio). Nota: eclipse (zé dos) também é o nome do meu guitar-hero português e autor da grande obra do rock em pt "E Se Depois".
De qualquer forma, e a propósito do tal fenómeno sol-lua, recordei o mês sediado num campus universitário de um país que se pode considerar de leste. Instalaram-me num quarto (1/4) de apartamento bem porreiro, que dividia com um checo que tinha um caso com uma espanhola (denominada "Estrella Galicia" para efeitos de anonimato). O quarto dava para um campo de basket e foi nessa estrutura magnética que me posicionei para assistir ao eclipse. Deviam ser onze horas e estava sozinho (deixei-me ficar a dormir e a consequência foi a perda de toda e qualquer forma de transporte). Nova nota: nesta segunda-feira que passou (03/Outubro) falhei o eclipse porque estava a trabalhar - evidente sinal do tempo que passa por mim. Mas lembro-me que, durante o eclipse comungado em Ljubljana, não senti nenhuma alteração mística ou comportamental what so ever. O meu coração não parou; a minha imaginação não avançou mais do que o costume. Pelo menos, nada que se possa comparar a quando ouço o "Je Suis Triste et Seule Ici" do Pete Namlook ou à revelação na leitura do "The Secret Diary of Laura Palmer" da Jennifer Lynch. E por bem, venham de lá todos os eclipses, mas na forma do 2046s. Em conclusão, esse dia foi mais ou menos igual. Não posso falar de barreiras espirituais, mistérios ou outros decalques tempo-espaço. Não existiu uma Vida durante o eclipse, nem nada lhe sucedeu de diferente.

Leio agora que a palavra deriva de ékleipsis que significa abandono, desmaio. Pois. Pode ser. Mas prometeram que a natureza tremia, os animais recolhiam, os homens sentiam e continuou tudo mesma: meio eclipsado, meio embotado.

Sibyllam

(I)

Vi com os meus próprios olhos, Sibyllam quidem Cumis, pendente, suspensa num vaso e vedada. E quando os rapazes perguntaram: "Sibylla, o que queres?" a resposta foi "Desejo morrer".

E Phlebas o Fenício, morto em 2 semanas,
deixou de ouvir o grito das gaviae, e, sobre o fundo do mar, abandonou o lucro e sorte.
Levou-o a corrente submarina, que ao sibilar o desfazia e ciciando o revolvia. Como o lacerava
e reordenava, Phlebas, revoluteando, percorria os estados da idade,
e a volúpia desses dias.
No fim restou o que decorreu nas pausas, ele, Phlebeus.




(II)

A questão foi um murmúrio que subiu pela escarpa "Sibylla, porque queres tanto morrer?". Então, a forma amarga lançou-se sobre o coro gritando "Porque o tempo não passa por mim!"

Phlebas, o morto, compreendeu que repousaria num dia da sua vida.
A regressão tinha esse sentido. O fundo, por onde andava,
eram as lágrimas ciciadas e o
choro sibilado do tempo.
Buscavam-lhe o júbilo, procurando as canções líbias entoadas sob a sombra da sua casa no deserto em louvor das filhas. Aí residiria.




(III)

Sibyllam quidem Cumis, baixou os olhos; a voz, por um lamento estranho, uma nébula, enlevou o povo que assistia: Dies Iræ! dies illa, Solvet sæclum in favilla, Teste David cum Sibylla!

Phlebas colocara as estremas na forma conhecida:
o amor da mulher.
Tudo sucedera depois.
Palpava terra do solo onde levantará a casa.

Música - Revisões

Come In

Come in Come in For one last dinner That I will make you

Come in Come in It is a small one For I am no cook

You have a long way Where you are going No longer welcome
And I am happy Yes I am happy You will be leaving Things will be changing
For you

You have done much for me But now you're leaving It's back to Egypt
That you are going They are not family They are not friends But a false history
And you aren't sorry

Come in Come in Or am I silly For saying such things Am I implying
That you must come again

Hoje voltei a ouvir o Come In. A seguir ao Trudy Dies (uma música horrível que não merecia as chord changes mais tristes do sadcore), quase em repeat. Claro que me lembrei do vídeo que passava num programa do canal Viva! (acho que tinha ponto de exclamação). Era uma casa em miniatura (em cenário - não era fechada) com uns bonecos dentro que construíam uma história. Por ter decifrado o enredo num vídeo patético, nunca pensei nesta refeição como a "Última Ceia" (a interpretação aceite pela generalidade dos estudiosos da obra de Will Oldham). Para mim será sempre o Cantar de Emigração; a compreensão dos que sentem a necessidade de deslocação; a justificação da coragem empregue no acto de abandonar.

Acabo sempre por valorizar a resignação dos último dois versos e repudiar o gesto de renúncia dos que mudam. Atribuo um sentido ímpio e demasiado severo a esta música. Julgo a iniquidade da culpa final e exagero derramando-a (inapelável) sobre as derradeiras unções, quando não não existe espaço ou margem para redimir os defeitos da vida. É demasiado Velho Testamento para uma música; mesmo que seja sadcore; mesmo que possa escrever um livro a partir de 10 linhas, um vídeo e a voz do Will Oldham.




Bill Callahan

Esta semana o Bill Callahan vem tocar a Portugal. O Blitz (que não comprava há uma série de tempo) tem um artigo realmente bom sobre o evento. De todos os discos Lo-Fi Self-Obsessed que tenho os do Smog são os mais difíceis. À excepção do último (um instant classic), arrependo-me quase sempre de os comprar. Penso que o gajo endoideceu de vez. Passado uns meses, já estou satisfeito e coloco-os nas prateleiras que ficam mais à mão. O (Smog) é um dos maiores. Num Celebrity Death Match perdia com o Kurt Wagner mas seria tão renhido como o Triple H vs Batista na última Wrestlemania.
É engraçado que exista uma convergência para o vocábulo "fetiche" quando se descreve a música do (Smog). Luís Guerra no tal artigo do Blitz escreve "fetiches incompreendidos"; no All Music Guide falam de "bizarre fetishes". E as Q, PitchforMedias não se desviam muito dos epítetos e prenúncios de morte, obsessão, falha, perturbação, malogro e o diabo a 4. Os incautos dizem que o Smog é divertido ("Dress Sexy at My Funeral") mas esquecem que o Smog é "4 real". Na sua música, Bill Callahan não dá garantias nenhumas de diversão que não sejam as manobras militares. E é por isso que o Smog é um dos maiores.
Um amigo meu, o maior especialista em Smog que conheço, diz que o Red Aplles Falls é undisputably o melhor disco do Bill Callahan. Eu alinho pelo A River Ain't Too Much to Love (nem que fosse só pela capa). É mais agradável; estabelece uma espécie de tréguas com o interlocutor. Afinal de contas, Bill Callahan canta que um rio tanto fertiliza como arrasa com a várzea. E tem o Say Valley Maker:

With the grace of a corpse
In a riptide
I let go
And I slide slide slide
Downriver
With an empty case by my side
An empty case
That’s my crime

And when the river dries Will you bury me in wood Where the river dries Will you bury me in stone

So bury me in wood And I will splinter Bury me in stone And I will quake Bury me in water And I will geyser Bury me in fire And I’m gonna phoenix


Em Outubro vai fazer uma tour com a Joanna Newsom. Nós não temos essa sorte. Uma versão Smog do The Book of Right-On faria-me mudar todos os afazeres para ir a um concerto a Lisboa a uma Segunda-Feira.




Two Pale Boys

Não tendo assunto e apetecendo-me postar qualquer coisa, vou escrevinhar sobre a versão do "Surfer Girl" que o David Thomas e os Two Pale Boys tocaram ao vivo na MTV. Não estou a confabular nem em delírio. Durante 8-9 minutos a MTV esqueceu tudo e passou o showcase dos Pale Boys.

O David Thomas, enorme, de fato, mais Captain BeefHeart que o próprio, cantou preenchendo o espectro; desde a Soberba à Graça, cruzando todos os poderes da Igreja da Geografia do Som. Acabou em desespero, diria-se drunk at the pulpit, mas redimido. No final apenas gritava, chorava. Por vezes tocava o melodeon produzindo um som melado; porque a voz era apenas a projecção de uma gruta funda, demasiado escura, demasiado abandonada. Passo a citar o insuspeito The Financial Times "Grown men cried" - acerca de um concerto na Escócia por essa altura. Nota para memória futura: citei o The Financial Times. Substituía a Surfer Girl original por uma Suffer Girl e prometia "We could ride the surf together; While our love would grow. In my Woody I would take you everywhere I go. Do you love me do you surfer girl". Lancinante, aflitivo.

O Andy Diagram (gorro vermelho num uniforme madchester) é um dos maiores e vou direito ao assunto: o gajo passa o som do trompete por efeitos de eco-delay, reverb, harmonizers, filtros e por vezes um sample. (c.q.d. é o maior). Não consigo imaginar um controlador mais poderoso para construir landscapes e texturas. No "Surfer Girl", que vos falo, nem recorreu ao layering. Tocou o solo mais amplo que alguma vez saíu de um horn (apenas a ressalva de existirem muitos estilos musicais que desconheço). Foi magnânimo, imparável. Deixou tudo para trás. Sendo a força das notas que se sucediam suficiente para formar um novo mundo, o Andy Diagram, perfeito, modulava os filtros e estendia os delays para que esse novo mundo surgisse imaculado. Durante muitos minutos.

Keith Moliné apresentou-se com uma boina de ir cortar madeira. Segurou a música com a sua guitarra Twang em grande estilo. Tocou os acordes de forma infalível (como diz um amigo meu quando quer descrever segurança- "é dinheiro no banco"). Não inventou (o Andy Diagram estava livre) e foi avançando na sequência que em tempos o Brian Wilson determinara.

Lembrei-me desta música porque o meu Irmão arranjou uma gravação de um concerto da golden age dos Two Pale Boys.

Há um entrevista muito interessante aqui http://www.ubuprojex.net/archives/pbvue.html

Nota. A versão do "Surfer Girl" que vem no Raygun Suitcase (Père Ubu- 1995) é porreira; mas não pode ser confundida com a versão do David Thomas and the Two Pale Boys




Michael Hurley

Oh the werewolf, oh the werewolf - Comes a steppin’ along
He don’t even break the branches - Where he’s been gone

He goes out in the evenin’ when the bats ’re on the wing
An’ he’s killed some young maiden before the birds sing

For the werewolf, for the werewolf - Have sympathy
’cause the werewolf he is someone - Just like you an’ me

Once I saw him in the moonlight when the bats were a flyin’
All alone I saw the werewolf and the werewolf was cryin’
Cryin’ nobody, nobody, nobody knows
How much I love the maiden as I tear off his cloths
Cryin’ nobody, nobody, knows of my pain
When I see it has risen that full moon again

For the werewolf have pity, not fear, an’ not hate
’cause the werewolf might be someone that you’ve known of late

And only he goes to me, man this little flute I play. All through the night, until the light of day, and we are doomed to play.

Michael Hurley


Conheci a música pela versão da Chan Marshall e passou mesmo algum tempo antes de perceber que Werewolf significa Lobisomem; e demorei a ver que existia um crime (na versão do You Are Free a letra não é tão explícita). Consegui ouvir o original há uns dias e fiquei impressionado. Gosto muito do verso "He don’t even break the branches - Where he’s been gone". E a maldição de tocar até à luz do dia compreende-se pela promessa entoada. É uma música muito bonita e o singingsongwritting não é simples. Não me lembro de alguma vez ter lido uma letra que falasse de piedade. Possivelmente o Johnny Cash raspou o tema no Hurt. E o Bad Seed repete-o com demasiadas palavras para formalizar a estética (não conta). A piedade invocada por Michael Hurley é um acto generoso, caridoso. A pena e o dó que não se confundem com juízo e muito menos condenação. O aviso, longe de ameaça, que o Lobisomem poderá ser alguém known of late. Idiossincrasia que não posso definir mas sentida sobre a própria indulgência. Não tenho forma de o saber, mas receio que someone that you’ve known of late é ele próprio, Michael Hurley, nós, eu, quem ouvir a música. Ele simplesmente terá vivido para cantar. Era mesmo uma forma diferente de ver as coisas; é difícil imaginar os dias da mão aberta, do livre arbítrio e da vontade incondicional. Michael Hurley precisa que uma press release acompanhe um disco de 1998. Mas em 1960 já fazia parte da subversiva Greenwhich Village.




Peter Laughner

Leio livros para adormecer. Ontem peguei no "Psychotic Reactions and Carburater Dung" uma colecção de escritos de Lester Bangs (génio fundador do estílo literário crítica rock). Teria muitas dúvidas se me dessem a escolher entre o talento do Lester Bangs ou do Sterling Morrison. Não sei mesmo.

Reli e reli a elegia escrita ao amigo Peter Laughner, o primeiro guitarrista dos Père Ubu (gravou 30 Seconds Over Tokyo, Heart Of Darkness, Final Solution e Cloud 149 para além de uma carreira com os Rocket from the Tombs). Um erro pois tornou-se-me difícil conciliar o sono; (estava preocupado com outras coisas).

"Later on he reminisces about his college days: "all my papers were maniac droolings about the parallels between Lou Reed's lyrics and whatever the academia we were supposed to be analysing in preparation for our passage into the walls of higher learning. 'Sweet Jane' I compared with Alexander Pope, 'Some Kind of Love' lined right up with T.S Eliot's 'The Hollow Men'..."

Mais tarde, à medida que Lester Bangs não questiona e não se penaliza pelo percurso descendente de Peter Laughner, introduz a figura do alibi:

"Peter Laughner had his private pains and compulsions, but at least in part he died because he wanted to be Lou Reed. That certainly was not Lou's fault; it was Peter's. Though he was a casualty of times, he brought it all upon himself"
Como um desaparecido em combate, no cumprimento do dever. Um mártir, um sacrifício humano da religião rock.

"Peter's death was the end of an era for me - an era of the most intense worship of nihilism and deathtripping in all markeatable forms"




Iron & Wine

Será o Samuel Beam sadcore?
Sendo um purista digo que não - falta-lhe a Tarnation necessária. O códex estético da mui nobre arte é muito preciso para admitir desvios superficiais. Mesmo que o resultado seja um disco melhor.
Escolho os discos do Iron & Wine para ouvir enquanto leio o "Debaixo do Vulcão", sinal de grande relevância, por um qualquer instinto que espero ter definido no final deste tarde. Mas, e vou adiantando, não me parece próprio de um músico de sadcore escrever um epitáfio; mesmo que seja um poema intocável:


Will you say when I’m gone away
"My lover came to me and we'd lay
In rooms unfamiliar but until now"

Will you say to them when I’m gone
"I loved your son for his steady arms
We both learned to cradle then live without"

Will you say when I’m gone away
'Your father’s body was judgement day
We both dove and rose to the riverside"

Will you say to me when I’m gone
"Your face has faded but lingers on
Because light strikes a deal with each coming night"

Each Coming Night por Samuel Beam (Iron & Wine, Our Endless Numbered Days, Sub Pop)




She's Good Enough to Be a Real Actress

Here’s room five four six, It’s enough to make you sick
Bridget’s all wrapped up in foil, You wonder if, She can uncoil

Here’s room one fifteen, Filled with sm queens
Magic marker row, You wonder just, How high they go

Here’s pope dear ondine, Rona’s treated him so mean
She wants another scene, She wants to be, A human being

Pepper she’s having fun, She thinks she’s some men’s son
Her perfect loves don’t last, Her future died, In someone’s past

Dear ingrid’s found her lick, She’s turned another trick
Her treats and times revolves, She’s got problems, To be solved

Poor mary, she’s uptight, She can’t turn out her light
She rolled susan in a ball, And now she can’t, See her at all

Drop out, she’s in a fix, Amphetamine has made her sick
White powder in the air, She’s got no bones, And can’t be scared

Here comes johnny bore, He collapsed on the floor
They shut him up with milk, And when he died, Sold him for silk

Here they come now
See them run now
Here they come now
Chelsea girls


Chelsea Girls (Lou Reed, Sterling Morrison)


A música foi composta por Sterling Morrison e Lou Reed e originalmente cantada pela Nico. A introdução é construída em torno de uma progressão de acordes menores que anunciam o desencanto e denunciam a natureza estranha da voz da Nico. A pronúncia ostensiva acaba, sobre os meus ouvidos, por superar a harmonia triste e a escala dorian percorrida pela flauta: realça todo o desenraizamento e alienação dos moradores do hotel chelsea. Singulares pelo sacrifício, dor e mutilação.

Filmes - Revisão

Carnival of Souls

"Nothing is "evil" in any ordinary sense. Everything is simply wrong."
transcrição de uma opinião no IMDB sobre o filme Carnival of Souls





A chuva
A decisão de sair para jogar basquet num dia de chuva torrencial é difícil. A mudança da hora e a volta do tempo sujeitam a vontade e acabo encostado ao sofá. Mais ou menos o desígnio gótico fate up against your will. E custa ainda mais quando vejo gente que ultrapassa as dificuldades cantando à chuva. Há dias vi o You'll Never Get Rich (1941, Sidney Lanfield com Fred Astaire, Rita Hayworth) e, finalmente, comecei a enxergar toda a agitação e alegria à volta dos musicais. Há uma dimensão mitológica destas películas que me passa ao lado. Não percebo as referências cruzadas em filmes que presto culto e os capítulos escritos em livros que venero, louvando o caminho de Fred Astaire e Ginger Rogers. Claro que agora, com a chuva, o horário de inverno e a descoberta do You'll Never Get Rich (ainda por cima, uma obra catalogada como menor), venha de lá o Top Hat e o Band Wagon para endireitar as coisas e tornar a vida mais justa num Domingo à tarde.

Como diz um amigo meu "Now all Beyoncés and Lucy Lius / And baby dolls get on the floor / You know what to do". E livrai-nos do Sam Peckinpah e de escrever um post sobre o The Getaway.





On the Waterfront
that On the Waterfront "was really a metaphorical argument" by Kazan and Schulberg: "They made the film to justify finking on their friends. Evidently, as Terry Malloy, I represented the spirit of the brave, courageous man who defied evil."

Supostamente, a forma como Marlon Brando justificou all the fuzz que circunscreveu On the Waterfront. Elia Kazan estava com problemas inter pars por denúncias ao comité de actividades anti-americanas.

Desta forma compreendo melhor o filme. Percebe-se que há um toque diferente no desenrolar da trama. A maior parte dos filmes desta Golden Age não pretendem transmitir nada. É apenas o filme pelo filme. Noir por Noir, exercícios estéticos ostensivamente vazios (é esse o objectivo, o truque), com vestígios e personagens subreptícias, mas sem mensagens ou subliminares morais de história. Existe um preâmbulo, um enredo e uma conclusão que ficam dentro do filme, consumidos no visionamento. É a verdade, são a verdade; e os meus filmes favoritos. Acabam é por não ser a realidade: Y'know that, women, never really faint, And that villains always blink their eyes, woo! And that, y'know, children are the only ones who blush! And that, life is, just to die!
O On the Waterfront é mesmo diferente e, provavelmente, existe uma força biográfica a mover a câmara. São os sinais da excessiva e deliberada vitimização de Terry que o denunciam. Joseph McCarthy sob a forma do dilema de Terry.

Before we get to where?
...
Take the job Terry! Please take it!
...
murmúrios
...

Charlie: Look, kid, I - how much you weigh, son? When you weighed one hundred and sixty-eight pounds you were beautiful. You coulda been another Billy Conn, and that skunk we got you for a manager, he brought you along too fast.

Terry: It wasn't him, Charley, it was you. Remember that night in the Garden you came down to my dressing room and you said, "Kid, this ain't your night. We're going for the price on Wilson." You remember that? "This ain't your night"! My night! I coulda taken Wilson apart! So what happens? He gets the title shot outdoors on the ballpark and what do I get? A one-way ticket to Palooka-ville! You was my brother,

Charley, you shoulda looked out for me a little bit. You shoulda taken care of me just a little bit so I wouldn't have to take them dives for the short-end money.

Charlie: Oh I had some bets down for you. You saw some money.

Terry: You don't understand. I coulda had class. I coulda been a contender. I coulda been somebody, instead of a bum, which is what I am, let's face it. It was you, Charley.





The Last Picture Show

Acerca do The Last Picture Show, o livro "Easy Rider Ranging Bulls - how the sex'n'drugs'n'rock'n'roll generation saved hollywood" refere-se ao esquema bogdanovitch'n'cybill'n'polly nos seguites termos "...um dia Polly encontrou-se a conduzir down a stretch of arrow-straight Texas highway entre Archer City e Wichita Falls numa carrinha Ford alugada...". Ameaçando de morte Bogdanovitch, levava a veloz viatura para a berma da estrada gritando "i'm going to kill us both!". Sem tradução o texto é assim "she swerved off the road into a ruttled, newly plowded field (...) she shrieked, as the car bounced over the furrows, ka-boom, ka-boom, ka-boom, until the hood flew up, and the car bottomed out in a cloud of red dust. They both burst out laughing."




Bullitt

Pouca gente resolveu tantos problemas em tão breve espaço de tempo como o detective lieutenant Frank Bullitt. Ao longo de 113 minutos (a acção prolonga-se por alguns dias) toda a encasinação, alvoroço e sobressalto é ultrapassada (mais mossa, menos mossa, mais amolgadela, menos amolgadela) percorrendo os altos e baixos da cidade.




Ordet

Eu não compreendia o cinema até ler João Bénard da Costa. Pode parecer exagerado, e de certa forma estilizado, mas foi a partir da leitura de "A Palavra da Ressurreição", escrito sobre o filme Ordet - A Palavra, que divisei um pouco da arte sob imagens em movimento.

Citando Sérgio do Arquivo Fantasma
Bénard da Costa escritor é um daqueles fenómenos que produz em mim uma ansiedade súbita, uma vontade de uma qualquer resposta superlativa, outro modo de admitir uma terrivel inveja perante a luz que se desprende dos textos...

Seguindo em citação
Os seus textos muitas vezes reflectem a sua fé, mas fazem-no sempre com uma discrição absoluta...

Quem, de entre os vivos, poderá não crer em Deus com tais exemplos do seu poder criador pulsando através do Homem?


Apenas posso acrescentar com palavras do texto que mais reverencio de José Bénard da Costa: "...tudo está na areia que escorre, na passagem das horas. "E então o tempo, sim foi coisa que passou". Só a Palavra e a Imagem o podem suspender assim. E, por isso disse S.Paulo que, maior do que a fé era o amor.
Ordet de Dreyer é o filme desse amor"

Livros Policiais

Name Dropping

Para mim, "O Jardim sem Limites" de Lídia Jorge é o melhor romance português dos últimos 30 anos. Houve um momento de indecisão quando considerei o "Gente Feliz com Lágrimas" de João de Melo.

E gosto de todos os livros escritos pela Ana Teresa Pereira: o "Matar a Imagem" é o meu preferido, talvez por ter sido o ponto de partida. A Ana Teresa Pereira sacrifica a pureza estética para avivar a incoerência da história, o sonho e a vida dentro dos quartos fechados. É uma profetiza. A descrição "o livro está muito bem escrito" deixa-me um sorriso. Está, efectivamente sublime; mas os cânones foram esquecidos pela força de uma literatura imperfeita. A Ana Teresa Pereira não tem pejo em repetir palavras, usar imgens corriqueiras e alimentar as personagens com pão, queijo, fruta e vinho dias a fio. Os lugares são sempre os mesmos (é indiferente ser nos Açores ou em Londres) e até a indumentária das heroínas não diverge muito de um hábito de roupas velhas de-andar-por-casa. Depois, quando há uma reposição do Philadelfia Story na televisão, um beberete na linguagem ATPiana, aparecem, num outro registo de elegância, com os vestidos justos e sapatos de salto guardados nos quartos fechados. Existem sempre escritórios onde se escreve, de forma solene, poesia e chove na maioria dos dias.




Rained on

...and his headstone's a gumball machine - no more chewing gum or baseball cards or overcoats or dreams.

in Small Change (Got Rained on with His Own .38)


Small Change a obra visual e a minha canção preferida do tio Tom quando estou com gripe. Da mesma forma que, quando comecei a ler Raymond Chandler só parei no último livro de James Ellroy, considero a vida feita destes excessos, Ed McBain e comunicados da SAD.

O último livro decente que trouxe para casa foi "A Companhia de Estranhos", Robert Wilson: um combinado de Jardins de Monserrate em Sintra, volfrâmio, bandas de garagem de Lisboa e espeluncas alugadas à hora. Claro que em matéria policial, o melhor remonta a 1987 com a edição de "Perfeito Como Nos Filmes", Editorial Caminho (autores Justino Pamplona e Luís Rodrigues), do mais comedido que há na literatura policial em português, mas situado no Bairro Alto, entre bares e regressos a casa com tudo virado do avesso. Já agora, se considerarmos que somos todos ibéricos, "Os Mares do Sul", Manuel Vázquez Montalbán, é um livro que não tem explicação, tal forma o estilo apurado - cruza uma cidade ao meio - deconstruíndo arrabaldes como fossos de elevadores. Bem, isto já vai mais extenso do que o inicialmente previsto e, se continuar, corro sérios riscos de acabar n' "O Segredo dos Chimneys".

Manifesto

Norma de chegar

O comping da realidade.

Nunca este blog terá um sujeito que seja, em si, ele próprio. Nem alusões gratuitas ao persuit trivial, dilemas ou mesmo o raio que parte. Que parte para parte incerta no lado certo do espelho, logo errado da noite, a escrita a pique no momento zero, quando o jogo ainda está zen a zen, quando se chega a casa.

Loving/Living/Party Going (livro que reúne 3 obras de Harry Green), a divisa justa, a embarcação semasiologia, no fundo, o distinto estudo da linguagem. Passados sete anos a escrever sobre o momento de embarcar (para a Riviera), um século mais tarde alguém irá consumir duas décadas a preencher uma norma de chegada.




86

A tabela de basquete sobre a porta da garagem. Ou o mal menor. Ou a vivenda geminada.

Dizer que os limites do campo estabelecem-se pelo pesponto da idade é pouco para o meu desânimo (porque, efectivamente, já não consigo jogar). O título esteve para ser "um post sobre coisa nenhuma", corrigido para "um post a partir do zero", alterado para o "um post do nada", acabado em "86". Como o nível de flutuação da água no bojo de um barco (o Rakuyo): 60, 84, 86 e o 90 quase tão acima como o escovém da âncora*. Mais os cineplexs, o fenómeno metereológico da inversão de temperatura, a estupidez de não ter comprado o Horses da Patti Smith porque não me apetecia esperar na caixa registadora, a dispersão, tudo junto, num sábado à tarde solarengo, em que nem era para escrever um post, quando nem me apetecia emblogar.

Breve como a arte maior de dizer "vou ali incendiar uns carros, parece que assim resulta"**, ou a postalação (conjugando post e instalação), ou o tempo a decorrer constatando (acknowlodge myself, obrigado) que um dia as referências vão acabar. Um dia as referências vão acabar. Um dia as referências vão acabar - esgotado o assunto, restará a originalidade e não poderei escrever mais - e deixarei de retirar prazer da audição da Waterloo Sunset cantada pelo Elliott Smith ("dirty old river, must you keep rolling, flowing into the night / people so busy, make me feel dizzy"), serei forçado a admitir que o golf relaxa (especialmente a paisagem avistada do buraco 5) e, dividido entre o Evol e o Daydream Nation direi "daydream nation" (num cenário grotesco, pensarei "são a mesma coisa").

Bem, isto já é mais do que suficiente para a vaga na redação da Yale Review*** e outros dias virão com mais posts.

Índice de referências menos explícitas:
*citação de um livro
*citação de cor (as palavras podem não ser exactamente estas) de um blog
***outras publicações já estavam referenciadas pela blogosfera nacional




Wild Post

"Lá em hollywood que é para tudo rolar"

(via rádio; estação não especificada)

Nem mais nem menos. Um sujeito pela estrada fora e sintonizado é facilmente derrotado pela evidência. Vale a percentagem de cérebro ocupado com vulgaridades (faixas de rodagem, embraiagem, mudanças, espelhos, entre outros possíveis exemplos); porque se o sonho comandasse mesmo a vida, esse senso, essa anátema, então o centro da festa deslocar-se-ia para hollywood, cinecittà, pinewood e tobis (sempre fica mais perto). Provavelmente o fim seria a cedência de resistência e o mergulhar na onda - ride the wild surf.




Alive and Kicking

Das muitas milhares de músicas escritas sobre drogas eu gosto do you're in a bad way. Em três ou quatro penadas a Sarah Cracknell (não sei se terá sido ela a autora das lyrics) esgota o assunto com o eterno "Toast is burned, / and your coffee's cold, / and you leave all the post `cause it's nothing but bills again. / Home from work, / put the TV on. / Get your kicks watching Bruce on the old Generation Game / Just dial my number, / I've got some plans for you. / You're in a bad way / and I can help you through. / You're in a bad way, / every day is just the same. / Just dial my number / or call my name." Vendo bem as coisas, why pamper life's complexities quando o "ai Jesus que lá vou eu" resolve tudo, da mesma forma que o Jardel resolvia em 99, da mesma forma que as Shirelles cantavam em 59, da mesmíssima forma que o Musil escreveu a partir de 21. Um amigo meu diz que é tentando, erguendo uma barrage de fogo de metralhadora, que se acerta: atirar a tudo que mexe para um dia atinar com a solução. São estas as opiniões que valorizo e fincam o novo padrão dos descobrimentos numa galáxia perdida no tempo do século 21. Em vez de sombra, o marco pode projectar a indiferença e o whatever, seguindo os ensinamentos revolucionários dos idos de março de 44 a.C. A vida, com certeza, não gira em torno de contos de gin tónico e consta-se que, quando o charles manson sair da prisão, aí é que vai ser. Rewind, das muitas milhares de músicas escritas sobre drogas, gosto do Mario's Café, na medida cheia, descafeinada a partir das 4 da tarde e com o açúcar bem mexido. De preferência, enquanto leio os resultados das corridas de cavalos no Racing Post e vejo resumos de combates de boxe na televisão. Alive and kicking, mais kicking do que alive, porque um dia, ainda hei-de chegar ao café e perguntar: "então pah!, com'é'que foi ontem o concerto dos KLF?. Falar the Black Tape For a Blue Girl não é simplesmente a mesma coisa, e sugere-me mais um sinal de doença. "E depois logo se vê" é um disparate. Apetece-me primir o gatilho sobre a iniquidade social e discursos sobre bolos, em vez de estar no cantinho a contar segredinhos à amiguinha, esquecendo a geração beat, a ecologia e os milhares de anos de cultura que precederam os últimos milhares. É pena lançar de três pontos, falhar, não carregar sobre o ressalto e não vir defender porque, "whatever", que sera, sera, whatever will be, will be the future's not ours, to see. E devia continuar e deixar que a transpiração me levasse ao confronto social, tropeções e rises and falls in more than a decade. Mas este blog não é melhor que o país e a desigualdade acaba por ser apenas mais um tema de conversa; e eu já me perdi.




Death and Kicking
Da miséria. Uma breve asserção escrita a lápis, depois passada num teclado configurado para pt, sobre os vários passos da cadeia alimentar até chegar a Deus.
Compreendo o gosto pelo disfarce escrito do gin tónico, mas prefiro usar relepente quando chega à forma líquida ou à espécie ausente. Indecifrável "não?", porque albeight toda a filogenia, Langley Parks e materiais cromáticos, o que existe são intermediários dizimáticos, com enzimas humanas e transcrição genética de natureza duvidosa. Eu não me perdi (segundo os cânones forenses) e continuo no trilho estabelecido, cumprindo a obrigação de comer frango de churrasco pelo menos uma vez por semana (regra geral terça-feira ao almoço). O tempo da natureza passou, possivelmente há muito tempo, prevalecendo inteligências artificiais predadoras com tropismo humanu e tropotaxia pela anima, saprófitas, supra-australopitecos, naturalmente bípedes e de feições indestinguíveis dos traços normais desenhados pelo Criador. Interpostos entre Deus e o Homem, bloqueiam o embarcar das almas e interrompem o mundo que há-de vir, penando ad aeternum, roendo per semper. Se isto fosse a sério, espetava já a imagem do faraó na antecâmara, reunindo tudo o que podia deitar mão (e ele podia deitar mão a tudo), para o que desse e viesse, para o bem e para o mal, para hathor e para seteh. Porque mesmo a figura real estava atrapalhada e acabava por não perceber Maàt como um conceito de verdade, justiça e ordem (wikipedia dixit) em vez de uma figura onde se despejam jóias. E passados milhares de anos, continuam a não ser precisos adereços ou adornos na noite mais escura da alma. É a consciência que conta e essa foi de tal forma corporizada em vida, que se transformou numa matéria moldada por ultra-humanos avançados (julgam eles) à espécie. É uma chatice sermos inimputáveis, mas acredito em Deus, confio na inocência e sei que as contas no fim hão-de estar certas.
E quando gritam "destruam-se dois mil anos de cultura!", fico assustado, acho um disparate (até porque não chegava) e é necessário aproveitar e recuperar a alma, arte e engenho da humanidade. Não adianta chegar à estaca zero ou ao moinho de água porque a electricidade foi uma coisa boa que nos aconteceu e, hoje podermos viajar sem nos mexermos, é inigualável. Também existe beleza nos polímeros complexos e relembro a maldade contida na estrutura ultra-simples da bomba de hidrogénio. Etc...

O blog aguarda ansioso os dias de escrita bucólica e margens menos definidas.

Este post tem o mesmo título que o anterior. Compreendam que o prefixo "a" usado em "alive" tem a mesma força de negação que o "i" quando aplicado em "imoral".




Edição: "Let Alone Be Gone", Aqob

Encontra-se em streaming no site da editora (Womblabel), e podem-no encontrar na Louie Louie (Porto), Matéria Prima (Porto) e Carbono (Braga).

Hoje à tarde falávamos sobre estilo. É um facto bem conhecido que qualquer pessoa pode tocar guitarra (Anyone Can Play Guitar, Radiohead) e, da mesma forma, qualquer pessoa pode pegar em 3 ou 4 discos, remisturá-los e adiciná-los de uns pózinhos de softsíntese presetada (de preset). É, em si, uma arte que eu não discuto, mas suponho que o mundo da electrónica DIY já esteja saturado e inquinado de wannabies músicos, cuja noção de filtro segue para dentro da mortalha.
Este disco é diferente; estou à vontade para falar do assunto porque a minha participação foi ínfima. Existiu um processo criativo, de gênese por meios electrónicos, sintetizados, de um som único e individual. De música mesmo; um artesanato com máquinas, módulos criados e arranjados seguindo a emoção do artíficie.




Fado gregário

Recebo muita publicidade não endereçada. Tanta que justifica tirar um dia de férias para arranjar o tal autocolante imunizador. Aliás, o maior benefício da vida no campo é um decréscimo de 64% nos panfletos e outros papeis plastificados despejados na caixa do correio. Muito possivelmente o leilão do lote 49 (conferir W.A.S.T.E. e Trystero) lida com esta problemática, com este culto parnasiano (art for the art sake, publicitar por publicitar). Com boa vontade, até imagino, no quadro das mulheres bordando o manto terrestre, grandes promoções de chocolate e sofisticados artigos de higiene esvoaçantes pela janela pós-estruturalista (talvez tenha forçado um bocado). O ecosistema tem de ceder e anúncios com preços baratos e oportunidades únicas são motivos tão bons como outro qualquer. Todos os dias na Amazónia marcam uma árvore com o nome da minha rua, abatem-na e transformam a parede das suas células e fibras em papel enviado sem endereço. O principal motivo que impede o alvará de novos hipermercados é a insuficiência das caixas de correio: volumetricamente mal concebidas (demasiado achatadas), simplesmente não albergam as corpulentas resmas de papel com propaganda e publicidade. Mas tudo bem. Se calha de estar três dias sem esvaziar o correio (o que equivale a uma pequena desconcentração), deparo-me com o brilhante cenário das revistas que assino (= pago) abandonadas nas escadas da entrada do prédio; já as campanhas de verão dos supermercados localizados num raio de 100 km estão cuidadosamente depositadas na caixa do correio, com zelo e desvelo, salvas de pingos de lama e solas de sapatos. Mas isso sou eu que tenho de ter mais cuidado e perceber as idiossincrasias da urbe, compreender o fado gregário e aceitar a propriedade do senhor do marketing sobre a fracção privada.

Obra Breve

Casting

Depois da apreciação dos elencos femininos dos filmes Nostalghia, Stalker, Zerkalo (O Espelho), Solyaris e Andrei Rublyov elege-se Natalya Bondarchuk, que faz o papel de Hari (Solaris), como a mais gira.




Descafeinado

Pois é, às vezes calha de pegar no frasco errado e tirar um descafeinado. Para o meio da tarde o pensamento torna-se recorrente: "hoje estou com uma moleza". Convém acentuar o caracter esporádico evocando uma qualquer prerrogativa pasmada. Mas não adianta - a tarde já não vai lá.




o Hype

Nunca, em momento algum, se deve antecipar o Hype.

Acreditar sim, usar de prudência, mas, de forma alguma, antecipar o sacaninha. Um pouco como o artífice e o artifício, a contra-mão e a via-verde (colocar um "R" envolvido por um círculo, qualquer coisa como "®").

À volta do campo

Espiolhar

Eu, por vez, espiolho - (automated autonomy playing on his mind, the spy in the cab).

Há dias, durante um interminável jogo de basket em que era suposto contribuir de forma enérgica sinérgica para o esforço colectivo, ouvi uma conversa que me deixou enredado. By the courtside falava-se do sms tv. Já tinha percebido que um dos últimos canais da TV Cabo era uma espécie de irc hardcore, bastante explícito; uma posta restante de mensagens sobreliminares. Como as caixas de correio seguras do Sam McReady dos livros do Irving Wallace.
O jogo passou para um plano muito secundário, visto que o meu raio de acção ficou limitado pelo campo auditivo. E, pelo que percebi: aquilo é a sério! Não vou reproduzir o que ouvi, mas, pelas descrições vividas e detalhes factuais, concluí que o sms tv não é fancaria a fingir diamantes. Existem pessoas que escrevem aquelas mensagens; existem corpos que vivem aquelas mensagens.
A moralidade pouco me interessa e este não é um post religioso monoteísta. O que vale é o fascínio pela organização da vida numa sociedade que contempla o sms tv. Moral, Mural, Amoral ou Imoral, o comportamento não é relevante nestas linhas.

Como diria o Lou Reed: "Some people they like to go out dancin and other people they have to work. Just watch me now. And there's even some evil mothers: Well there gonna tell you that everthing is just dirt"

Eu juro que o Lou Reed diz "if you think is just dirt".




Hoop Dreams

Dreams Never End dizem os New Order
Hoop Dreams Never End digo eu.

Tenho mais 12 ou 13 anos (e certamente o dobro da quantia em quilos) do que quando comandava exércitos dentro do campo de basquet. Possivelmente, deveria começar a aprender a jogar golf. Mas os Hoop Dreams não se esgotam.
Vou jogar um basquetzinho uma vez por mês e, nessa gloriosa e quixótica tarde (o meu movimento dilecto, o meu hoop dream, foi sempre o windmill) lanço centenas de vezes a bola ao cesto, finto todos os adversários que imagino e driblo todas as defesas que não existem. Simulo entradas, rotações (spins away!), turn-around shots, fade-aways e triplos que não contam em cima do limite do tempo (from downtown, beats the buzzer...). Jogo contra o cesto, contra o tempo, contra mim... a meu favor.

o vosso Field Commander Cohen (desculpem Pedro)




Søren Kierkegaard (court side)

O tempo não tem estado mau permitindo umas idas ao campo de basket. Enquanto os lançamentos se sucediam (falhados), a dialéctica e demais métodos de compreensão da realidade decorriam (igualmente logrados). O cesto, renitente em permitir os desejados 2 pontos, simulava a ordem de "Os Conceitos da Ironia com Referências Contínuas..." e regurgitava todo e qualquer lançamento, independentemente do acrisolamento técnico e da virtude dos jogadores. Receoso, e farto de falhar (como em "Fear and Trembling") um dos intervenientes apelou a intervenções superiores referindo: "não sei se guardo mais ressentimentos contra a catequista ou se contra o treinador de basquet". Um adversário corrigiu-o dizendo "either/or". A amplitude do apuro não foi imediatamente compreendida. Era um fast-break e o jogo estava perto do fim. Ficou a ideia da alusão a um disco de Elliott Smith e pouco mais. Disseste "falta"? "Não! disse either/or - e/ou. Ressentimentos contra a catequista e/ou o treinador de basquet". A conceptualização Dread prosseguiu em bom ritmo e rapidamente teriam chegado ao The Sickness Unto Death (e às questões de alinhamento com Deus) se no Inverno não escurecesse cedo. Em 2006, jogar basquet por neuronavegação é ainda inexequível; e o gps-sonar funciona mal fora do deserto. Erros que recusam correcção.

E um dia, no alto da catedral de Gaudí,
chorei de horror da Queda, como os caídos anjos.

Fiama Hasse Pais Brandão, in Epístola para os meus medos




Nunca estive em Barcelona. E também não chorei quando, sobre a queda, percorri, no inferno de Kafka, o empedrado sinuoso da solidão. Estava muito cansado, mas isso seria das viajens e das ruas que insistiam em subir. Lembro-me do alívio sentido no bairro Judeu e de uma música primitiva tocada na praça. Formou-se-me a idéia que se caísse da parte alta da cidadela, rebolaria até ali, para junto da melodia, dos sons das pessoas a circular, das conversas, da vida. Recordo ter entrado nos escombros de uns edifícios que estavam para ser demolidos; reconheci a estrutura despojada de um bar ainda intacto, vazio e abandonado. Tinha divisões misteriosas, octagonais, que protegiam o interior: dissimulavam o cerne enredando oito arestas e entrelaçavam a sombra com sobreposições.

Wednesday, November 01, 2006

Figuração

Elevador

A cor da carne nas superfícies frias, a perspectiva possível entre três espelhos, uma porta automática de aço inoxidável azul safira, sensores e os passos no corredor. As diferentes proporções de organização e fé, além das normas iso 9001, do lacado branco e da dissolução. Depois do tapete, uma linha a sugerir o poço, mais o fundo de cigarros apagados, chaves que escapam e fábulas. Tudo demasiado seguro para se poder difundir, iluminado pelo halogéneo e com detecção de percurso.




Térmites

Não se gosta de térmites às primeiras. O aspecto indiferente e o lavor dolente, ineficaz no ladrilhado da sala, são, numa palavra, vazios. Imagens de trânsito na ponte e movimento na vci, ajustam-se num filme perfeito daqueles minutos isolados, em que assisto as térmites, enjoadas de alfombras e desejosas de um caminho entre a tijolheira, tentarem em vão dissolver a divisão. Antes de sair, encosto-lhes uma perna da mesa de jantar (arrasto-a até diante da televisão) e espalho serradura perto da frincha de onde saiem as resolutas térmites pequeninas, já prontas para a vida.
Durante o dia não estou em casa, de seguida são apenas suposições, mas parece-me que os insectos a quem confio a casa de manhã não são os que encontro quando regresso. Diria mesmo tratar-se de outra espécie, fisicamente semelhante às térmites, mas com tropismo diferente, quase comensais, sondando a inevitável pasta orgânica que trago da rua na sola das Timberland.




Waterloo Station

No fundo tratava-se de uma pequena seita decorrida da outrora influente comunidade penpal do Benelux. Distinguiam-se por trazerem uma ridícula folha A4 com a tablatura do Waterloo Station, sempre segura na mão esquerda, sempre nas rondas de fim de tarde de sexta-feira. Estas voltas, conhecidas no meio como o cerco da estação, eram mesmo o único traço de unidade; a tristeza que vestiam ou os sobretudos não passavam de simples adereços e camuflagem urbana, perpétua, dissimulada dentro dos Starbucks e estações de metro, anuviada entre toldos e chapéus de chuva. Desejavam entrever Terry e Julie e sentir a corrente que os levava para o restaurante do outro lado do rio, escutar o murmúrio desse caminho, atravessar nas mesmas ruas. A maioria nem conseguia tocar guitarra e os signos sobre a letra eram rudimentos crus no meio de uma formação clássica - ambientes com demasiados pianos Nelson & Wiggin e órgãos Rodgers Trillium para que tudo pudesse correr bem. Numa cerimónia simples e devota, tocavam a música à noitinha, num Casiotone guardado no quarto, depois de cumpridas as obrigações com a escolástica, o enfusto em aço, e a música de câmara. Quando se encontravam, nos tais cafés próximos da Waterloo Station, perscrutavam as faces recíprocas e pensavam como seria se, no concreto, encontrassem mesmo Terry e Julie.




O drama da manilha seca que embarca na primeira puxada.

A história conta-se em poucas palavras. Única do naipe, a manilha teve de ser jogada para assistir o ás. De nada serviram as altercações e obscenidades proferidas, ou mesmo as referências à indigência das cartas atribuídas ("não tinha nadinha, não tinha jogo nenhum" sic). A renúncia é sempre indigna, além de muito mal interpretada.




Jardim d'Inverno

A conversa tornara-se lenta e o Homem-Gargalhada preferia deixar tudo como estava. O toque resultara num sentido diferente; materializara a ilusão numa forma comum e a brisa desvanescera. A vida seguiria dentro de, melhor dizendo entre, um ou dois instantes. Entre o dever e o haver abria-se um fosso escarpado e o Homem-Gargalhada tinha cada vez menos vontade de visitar o fundo. Ali de cima, do dever, suponha que seriam apenas cactos e carcaças mas nem queria ter grandes certezas. A sombra projectada pelo haver enegrecia o carreiro e a terra ficava tão escura que era uma dor d'alma. Ninguém cuidara do jardim de inverno e a vegetação estragara-se: tinham vivido árvores de fruto no lugar da areia e eram sebes cuidadas, por vez da noite, que cortavam o horizonte.




Etno-chic

Era como se estivesse no andar de cima. Uma casa velha com madeira a completar a pedra e juntas que agudizavam os sons mais inquietos da natureza humana. Chiar, ranger, estalar, prenunciando o movimento de ultrapassar as portas, os passos sobre o soalho, o encosto na ombreira. A autoridade antes do autor, o destino que precede a fé, o som seguido da fúria. Mr Rain perdoaria com certeza a ilusão e um temperamento impaciente, gasto pelo desuso, exasperado com intrusos e abrigo em pavilhões multiusos. O interior, a fauna da terra, as sementes espalhadas no chão como pó, a divisão escurecida pela gelosia que encerrava a janela da sala - apenas uma meia dúzia oblíqua de feixes de luz perpetravam a casa. As mesmas frestas por onde espreitava o desbaste e o espaço entre as árvores. "Vê-se tudo parado" rumorejava, "anda aí o Desdouro, Mr Rain" insinuava muito mais do que afirmava, o efeito do murmúrio combinado com a pretensão de alastrar a voz por um espaço finito.
Era como se fosse o dia de abrir a casa, no início do Verão, quando Mr Rain tirava um molho de chaves da gaveta e dizia "amanhã passas pelo ribeiradio e arejas a casa. E fazes uma limpeza assim por alto". "Mr Rain, desculpe-me o atrevimento mas anda aí o Desdouro, como sabe". Mas era pior, muito pior, súbito e súbdito, vendo tudo parado, sentindo tudo contra-ordenado, resistindo ao orgulho, subsistindo à altivez. E subsistindo às declamações intermináveis de versos piedosos com epílogos funestos, "Ignomínia, ignomínia!", "Absalom, Absalom!", danças rústicas e fantasias de entrudo, os movimentos esquecidos durante quadragésima. Receava por ter tão pouca luz, hesitando ao descer as escadas, pressentindo falhas no sobrado e as farpas no corrimão, imaginando a dor da estilha no braço. Pensava no destino que precede a fé, "Hey mr Rain, a autoridade adianta-se ao autor?", mas concluía "Se cair, que seja com força, para passar os féretros e deixar de ver tudo parado".
Cá fora uma roda de mulheres repetia a ladainha "...de Alto d'Ouro sob o Desdouro, de rojo pelos barrancos, a resvalar por córregos cheios..."

Shamrock randomizado

Encontrou 3 folhas reproduzíveis numa gaveta sob a secretária, e, num gesto de aborrecimento simulado, levantou-se da cadeira e adiantou-se para sala das fotocópias, a ultima thule. Ficava contrariado ao percorrer o território do escritório, atribuindo-lhe noções profanas e dimensões mitológicas, sentindo-se muito desconfortável na versão moderna da ilha do minotauro. Os recursos optimizados e as capacidades instaladas, o decalque do soalho flutuante, entre corredores separados por tabopan, estruturas de aço e secretárias alinhadas, as estremas nos tampos de aglomerado reluzindo epóxi pigmentado e monitores lcd tft. Cumprimentou os colegas, as workstations e as plantas que enfeitavam os cantos. Recusou um café, respondeu "não posso" a um convite para sair à noite e pensou duas vezes no livro que Vrinda tinha no canto da mesa: "The Book of Right On", autora desconhecida. Cumprido o desiderato, chegado ao Valhala, fechou a porta e procedeu ao telefonema, em estrita observância das normas comunitárias e direitos conexos.
Os primeiros instantes da conversa foram indefinidos, vagos, com a dificuldade de sempre em contextualizar uma chamada no telemóvel. A voz do outro lado era indistinta, amorfa, quase anidiana e a compressão tão intensa que quase não circulava informação - demasiada emoção retida nos filtros das operadoras.


A conversa decorria entre "estamos sozinhos" e "maldita terra" não chegando a parte nenhuma. Regressava ao início como o vinho que volta para a garrafa, ainda pródigo, depois de todos os perdões e desculpas. E era tudo verdade, sentia-se cada vez mais desgarrado, mais estrangeiro, mais perdido à hora do almoço no pátio de St Olave Jewry, sentado num banco, atafulhado de guardanapos e revistas, evitando as nódoas dos express kebabs e das galinhas fritas do kentucky. Apetecia-lhe um mergulho numa praia colonial francesa.
Também falavam de sangrias e bayucas, gracejavam ("a tua cama é uma teia", "onde ficarás sozinho esta noite"); e chegavam a lugares lúgubres, cheios de gente, música soturna e explicações condescendentes.
-Então?! Combinamos às seis no Alba?
-Está bem, posso é chegar cinco minutos atrasado...
-Então seis e um quarto?
Lucinda triunfara e despachou o telefonema com "sharp"ness, coroando a questão da saída e evitando os aracnídeos (era certo que, se o deixasse falar mais uns minutos, começaria com histórias pestilentas de aranhas e insectos).
Shamrock desapertou o garrote, convinha que alguma coisa chegasse ao cérebro, e regressou à secretária seguro que, enrolando o fio do novelo de Theseus, encontraria o seu lugar ainda vago. Além do trabalho a meio, faltavam-lhe ainda as apostas nos greyhounds; assim atravessou a sala e os colegas exibindo um esgar de aborrecimento: a superfície envernizada dissimulava o interior crispado "porque é que as agência fecham tão cedo?". O site da corretora trazia-lhe azar e desconfiava dos pagamentos online com o seu cartão de crédito. Tinha quase a certeza que as corridas seriam em Mildenhall. Apostaria no Nostalghia e no Zerkalo (uma reverse forecast); eventualmente arriscaria uma trifecta se o Offret corresse. O Stalker, apesar de ter ganho a Birmingham Cup e a corrida de Sunderland, estava em baixo de forma.


Fez uma pausa - aproximou-se da janela.
Tinha por cenário a esquadria de vidro e as pedras de mosaico laminado com que tinham construído os edifícios dos escritórios. Tudo que o via projectava o colectivo, envergando o plural com a mesma fatalidade, quer se referisse ao mausuléu erigido a Augusto e Lívia, quer apontasse para as plataformas fundeadas no Mar do Norte (pobre mar do norte). O próprio Céu encerrava aquele mistério barroco de nuvem branca sem fim, povoada de substâncias aliviadas das dores, alijadas de pesos mortos, vaporosas e, numa intensa comunhão - O Céu implicava partilha de espaço. Voltou-se encarando o open space do escritório; murmurou "in heaven everything is fine, in heaven everything is fine; you got your good things and i got mine". Sentiu na ladaínha uma oração por uma distância no Reino de Deus, onde as almas se podiam recolher e velar por si.


O monitor piscava a luz verde na base indicando o modo de descanso, suspensão. Cinco minutos sem dados-informação e entraria em "save mode", fechado-se num fundo imperscrutável, denso. Desfeito com o toque como o reino do coronel Kurt: bastava um abanão no rato e o irradiar policromático sobrevinha, cintilando o sol por entre a densa vegetação. Era um truque simples mas que Shamrock gostava particularmente; remetia-o para o instante dos jogos de flippers, quando a bola fluía para o abismo, e uma pancada de lado, combinada com um puxão, garantiam a sobrevivência. Muito da vida era assim: empurrões. E ainda lhe faltavam três ou quatro empurrões para acabar o dia.
Enquanto se insinuava, de forma judiciosa e com um critério escolástico, por entre os menus e drop-downs, reflectia sobre os seus monikers, imaginando os emolumentos e mais-valias se, por hipótese, adoptassem um comportamento semelhante ao dos monitors, desligando-se na rarefacção de dados-informação. Era mesmo o sonho de um dia existir depurado de todos os despojos de um century of fakers. Encontrava-se saturado de deixas, encenações e legados, mil anos de cultura, capas da Dazed 'n' Confused e referências em ponto de cruz. Podia dar-se o caso de estar perante o "Pánico de Data - Fase Recessiva", entidade reconhecida, de evolução insidiosa, etiologia desconhecida e evolução frustre, apenas autodepreciativa. Assim mesmo, sem o habitual e florido quadro clínico da forma activa, flagelante, cursando com comportamentos destrutivos.


O discussão centrava-se sobre o conhecimento. Seccionando o dharmavinaya, discernindo entre doutrina e disciplina, Shamrock propunha que não havia semelhante coisa como mau conhecimento (expressa na versão bilingue "there's no such thing as bad knowledge", soava a um refrão vegan rock comunitário-continental). Do outro lado, com maior nitidez, realçavam a realidade e explicavam "um conhecimento que não serve para nada, é mau". A questão estava estilizada sobre licenciar a LSE - London School of Economics, e o livre acesso dos aspirantes ao senado, passando das equipes B para a república. Shamrock sustentava que o conhecimento era sempre útil, focando o caso de um amigo que anotava num caderninho toda e qualquer forma de knowledge, configurado como contacto telefónico feminino, e que nunca se tinha dado mal com isso. Responderam-lhe com alusões à justiça divina e facturas de telemóvel e ele ficou calado. Transbordava sempre com a matemática, era português, sucedendo, e por ordem cronológica, falta de aporte de informação, mutismo, desvio de conversação (desconversação in extremis). O cálculo da qualificação para o Itália 90 (dificultado pela variável inconstante dos golos fora) fora a última grande operação de álgebra realizada e deixara-o sem grande vontade de aprofundar os estudos aritméticos. Entretanto, a insistência em materializar dados e as referências a escolas de pensamento orientais, eram rebatidas. À medida que somava normas de regência de bhikkhunis e simples "nãos", Shamrock alheava-se seguindo um esquema já tipificado em "my worlds getting bigger as my eyesight gets worse". Lucinda, do outro lado da mesa, citava Iris Murdoch, estabelecendo os degraus do conhecimento: a poesia que substituiu a oração, que por sua vez, substituiu a magia derrotada da infância. Não havia maneira nenhuma de sair do polígono (a discoteca era poliédrica) e o cinquenta cêntimos cantava: we gon' party like it's yo birthday / we gon' sip Bacardi like it's your birthday. Desistira da conversa enredado pelas mensagens subliminares da letra (sorvia o Rum Flavoured with Lemon em pequenos shots), o desinteresse pelos assuntos que as amigas de Lucinda tratavam e o echo delay na sua cabeça: poesia, oração, magia.


Afastava-se apenas para encontrar batalhas mais distantes. Os lamentos zurziam-lhe agarrados a reconsiderações apologéticas e remissões elípticas. Podia-se pensar que cambaleava - uma interpretação livre dos passos inseguros e trajecto indefinido. Notava os cristais sob os olhos das mulheres; um qualquer efeito de sedimentação do choro, seco pelas luzes multicolores trémulas dos Strobes Chauvet CH-750, dos Laserbursts e das 20 inches Mirrored Discoballs. Shamrock reconhecia tratar-se de maquilhagem brilhante, mas limitava-se a seguir profecias antigas impressas em vinis: "it'll end in tears". Floating into the night, as lágrimas formatavam, o álcool configurava e as sleeping pills haviam de frenar a instabilidade do sistema, corrigindo os problemas de memória. As falhas, preenchidas com saibro e disfarçadas por resina sintética, continuariam a fender os dias seguintes, sulcando o embotamento e grassando o ressentimento. Entretanto, o mestre de cerimónias abandonara o house minimal, tinha tido, entre os convivas, pouca receptividade, e pusera a tocar uma versão moderna do "The Tide is High" dos Blondie. Era melhor assim: todos reconheciam que as marés iam altas e as raparigas sempre podiam anunciar não serem do tipo que "desiste facilmente". O verdadeiro motim surigiria quando os djs passassem o Union City Blue, definindo o verdadeiro impasse exposto no verso "Oh ho what are we gonna do?".


Sentia que poderia conduzir por milhares de quilómetros; a reflexão era apropriada de "and the way i feel tonight i could die and i wouldn't mind", e contrapunha-se à inoperância experimentada quando circulava por corredores cingidos por biombos de tela cinza neoprene, e vias definidas em traços rodoviários com separadores centrais metálicos. Sabia que a melhor forma de desaparecer (completamente) era perder o interesse. O conceito ocidental da nebulae de Orion, sem efeito e ineficaz, visível nos dias de chuva e vento e nas jornadas de catarse solar. Também a derivação autofágica do esquema litúrgico de Osíris, retomando ao mesmo, perpetuando sem alteração, absorvendo os poderes do próprio.

Precisamente indiferente ao equador celeste, a declinação de menos 5 graus e 25 centésimos não seria corrigida, uma indulgência que sobreviveria em fragmentos e remeniscências, brilhando depois do degelo, passando pelo carbono no tempo. Tinha visto a alegoria do velho gaiteiro, Saraband - assim se chamava, e reparara na forma como a clemência se substituia a Deus na ordem "if man is five / then the devil is six / and if the devil is six then God is seven". Love Is Stronger Than Death, Death Conquers All, proposições que não careciam de demontração (na verdade não careciam de nada, tal qual as Irmãs da Caridade).


Era mesmo a possibilidade de estar cinco minutos sem fazer nada, overdiaries e overbeings, sobre-escritos e seres-acabados no módulo "diz-me como me sinto". Pronto para mais um dia cheio de dread, un autre jour au paradis, parado diante de dois elevadores avariados num prédio em Belvedere Road. Hesitava entre a escadaria e as ruas do Bankside, entre o simples deslize e o deslizar pela vida em charme (sliding through life on charm), indeciso entre a porta da casa e a serventia da rua. A metodologia passava por carregar regularmente, seguindo um compasso não muito estrito mas certinho, nos botões de chamada dos ascensores, e esperarar por um efeito na mecânica, um nexo na biologia, pelas luzes. Eventualmente arreactivo (irreactivo para o caso), restava-lhe a profunda meditação sobre flyers, a nova literatura panfletária, ilações tipo critic's notebook do festival de cinema de Tribeca e ilusões. Persistia-lhe na vontade o regresso a Lx (nem mais), ignorando toda e qualquer forma de oportunidade, um plano de execução sumária dos sinais harmónicos da voz: por ordem, bom-senso (a oitava), brio (a quinta perfeita) e orgulho (o terceiro tom menor). Trataria depois de esmerilar os pormenores dissonantes e desenquadrados da escala cromática, ufânia e o faustu, discerníveis na massa do som apenas com os timbres mais puros, e que seriam polidos em terapias suaves de exposição prolongada. Certa vez dissera, "eu, se tivesse mesmo talento, desperdiçava-o neste instante". Não perceberam e responderam-lhe mal, com um seco "go dig yourself"; cada vez mais tinha a certeza disso.

Já estava dentro de casa e ligou a televisão. Os hypes não seriam mesmo de fiar; mas as ancas (hips) , essas definitivamente não mentiam.


"Na América é tudo diferente - os conceitos, principalmente. Mesmo contextualizando. Imaginem um bar com balcão corrido de madeira, bancos altos, duas mesas de bilhar, setas, o "Like a Hurricane" em fundo, barulho, muito fumo e eis que, o jack chega-se à jane e diz 'i can tell you taste like the sky cause you look like rain'. A continuação da história é irrelevante, feita a apresentação".

Assim, de forma mais ou menos sinistra, Shamrock leccionava política internacional, coligindo estudos demográficos e rough guides para a paz. Era o intervalo para almoço e ninguém realmente ligava ao que ninguém realmente dizia. Pertenciam ao novíssimo esplendor na relva, um tracejado semicondutor sobre placas verdes telúricas, solda, juntas e isolamentos, marcando o regresso à arte antiga de trabalhar o boro e o fósforo. Não conseguia ver nada que pudesse chamar seu. A terra era uma nação estranha e mesmo os circuitos, apesar de mais estáveis, também cediam, regulados por contingências orgânicas e sujeitos à entropia decorrente dos episódios casuais de desnaturação. E vago, demasiado vago e indistinto de modelos experimentais, exercícios teóricos, formulações matemáticas e talvez contas de rosário. "Ouviste os discos do Sondre Lerche?" perguntavam-lhe de uma mesa contígua, naquela plataforma onde queriam que confraternizassem, tomassem café e eventualmente discutissem o cisma do povo hebraico. "As músicas têm demasiados acordes" - "É! O gajo não as deve conseguir tocar ao vivo" - "Pá não sei, talvez com uma banda de músicos de estúdio". Aquiescer, anuir e derivar. Reading, writing and arithmetics - o telemóvel não tinha mensagens novas.


Por vezes a matéria esgotava ou derivava (por ordem de chegada) e o resultado surgia sob a forma de um derrame de fonemas, porfiado numa espécie de urdus ocidental, variegado entre tons tristes, quase arraiolos, mas ainda em covent garden. Falava de si no espaço e tempo - oh clemência!, perorando indiferente à plateia, equilibrando-se em qualquer posição. Drunk at the pulpit mas sem beber, a finura de evitar cet obscur objet de la bourgeoisie - ouvir.
- Temos todos uma fé inabalável nas férias. É o último reduto.
[sorrisos]
- A sério! É o credo que trazemos na boca. Férias, férias, férias. Achamos que qualquer problema se resolve com férias, em férias e de férias.
[mais sorrisos, condescendência, ascendência e solitude]
Por um momento, Shamrock perdeu-se no plural, acontecia sempre que pensava numa estrutura pluridimensional tipo cubo. A desolação fê-lo regressar às extrapolações moduladas a partir de si.
- Foi um quebranto. Ainda está relacionado com profecias antigas e cenas messiânicas. Duzentos anos de férias se chegarem à Índia. Mais trezentos se entrarem em Ceuta em cima de um cavalo com a espada na mão. Tudo à conta.
Continuou alternando factos da história com impressões digitalizadas até já ninguém o ouvir. Era outra vez seguro: desenrolavam-se outras conversas.


A verdade perpassa, tal e qual o sake- um leve incómodo no final da refeição; como o saque- o longo instante a conciliar a privação. Serão os amigos eléctricos, questionava-se enquanto percorria os endereços no BlackBerry, no meio de Devon, fantasmas e políticas de expansão. Tinha encostado o carro alugado numa berma mais ou menos "segura", o friso de uma cottage garden, e fechado os vidros temendo as fragrâncias, chilreares e deterioração, já lhe bastando para tal o erudito estudo de viabilidade de uma pequena companhia aérea tailandesa. No fundo, tinha de fazer a peritagem a décadas de gestão danosa, submissão continuada e predomínio da maquinação sobre a moral e mesmo sobre a máquina. Eram milhares contas rasuradas, múltiplos esquemas de desvio de verbas, desperdício e iniquidade social, resumidas numa resma contínua de papel A4, profundamente printada, intensamente monótona. A semi valeta de uma estrada rural não seria, com alguma certeza, o local mais confortável para analisar contas e debitar cômputos por um telemóvel artilhado mas, até para a economia era necessária inspiração - in the mood for economics. Prosseguia remoendo a asneira de ter deixado o Power, Corruptions and Lies em Portugal, lamentando a falta do disco naquele momento, aborrecido com os weather forecasts dissimulados na música saída do auto-rádio; de qualquer forma o carro não tinha leitor de cds. A verdade perpassa, sabia, da leitura de mais um relatório, da substituição de variáveis por números, convertendo caracteres em carácter, morigerando os fundos de maneio até conseguir maneiras dignas. Shamrock ao entardecer, naquilo que fazia melhor, afastado do seu habitat, isolado e dentro de um carro, contrariado pela tecnologia, cingido pela electricidade e estática.


Shamrock corria como se não existisseum dia seguinte. Era a subtileza na motivação, o encontro em si. Na verdade, sabia da ausência, do “no future”, mas encarava tudo muito resumidamente e com formas não muito explícitas, acreditando piamente no dia depois, respeitando as diversas apresentações da alvorada. Desejava seguir até à incompreensão total, em estrita observância pelas regras da atracção, na pista de atletismo do Regent’s Park, de manhazinha, revendo mentalmente a lista do supermercado.
”I’m with the band”, “I’m with the band”, gritavam do outer circle, misturando drama com as exclamações incompletas dos ornitólogos e o coro das Toutinegras-de-barrete, o sempre complexo binómio observação-ilação, a vida selvagem nos canaviais. Assim, enumerando artigos de higiene e serviços mínimos de cozinha, a correr, como uma aplicação de DOS, visualmente básico e entrecortando a respiração com o espaço por minuto. Lâminas, espuma, ciclos, pulso e acção. Também tinha um capuz negro que se desprendia da sweater com a fórmula “Just do It”, tingido de vermelho o poliéster texturizado, escorrendo e terminando numas sapatilhas brilhantes, concebidas para pisos rápidos de tartan, igualmente céleres em pistas de cinza. O desígnio, a integração plena nos rituais modernos e demais aspectos da moral, mixing novidades pastorais com as habituais encíclicas para os medos, esmoídas, dispersos em borboto.

Pedro Lago