Para mim, "O Jardim sem Limites" de Lídia Jorge é o melhor romance português dos últimos 30 anos. Houve um momento de indecisão quando considerei o "Gente Feliz com Lágrimas" de João de Melo.
E gosto de todos os livros escritos pela Ana Teresa Pereira: o "Matar a Imagem" é o meu preferido, talvez por ter sido o ponto de partida. A Ana Teresa Pereira sacrifica a pureza estética para avivar a incoerência da história, o sonho e a vida dentro dos quartos fechados. É uma profetiza. A descrição "o livro está muito bem escrito" deixa-me um sorriso. Está, efectivamente sublime; mas os cânones foram esquecidos pela força de uma literatura imperfeita. A Ana Teresa Pereira não tem pejo em repetir palavras, usar imgens corriqueiras e alimentar as personagens com pão, queijo, fruta e vinho dias a fio. Os lugares são sempre os mesmos (é indiferente ser nos Açores ou em Londres) e até a indumentária das heroínas não diverge muito de um hábito de roupas velhas de-andar-por-casa. Depois, quando há uma reposição do Philadelfia Story na televisão, um beberete na linguagem ATPiana, aparecem, num outro registo de elegância, com os vestidos justos e sapatos de salto guardados nos quartos fechados. Existem sempre escritórios onde se escreve, de forma solene, poesia e chove na maioria dos dias.
Rained on
...and his headstone's a gumball machine - no more chewing gum or baseball cards or overcoats or dreams.
in Small Change (Got Rained on with His Own .38)
Small Change a obra visual e a minha canção preferida do tio Tom quando estou com gripe. Da mesma forma que, quando comecei a ler Raymond Chandler só parei no último livro de James Ellroy, considero a vida feita destes excessos, Ed McBain e comunicados da SAD.
O último livro decente que trouxe para casa foi "A Companhia de Estranhos", Robert Wilson: um combinado de Jardins de Monserrate em Sintra, volfrâmio, bandas de garagem de Lisboa e espeluncas alugadas à hora. Claro que em matéria policial, o melhor remonta a 1987 com a edição de "Perfeito Como Nos Filmes", Editorial Caminho (autores Justino Pamplona e Luís Rodrigues), do mais comedido que há na literatura policial em português, mas situado no Bairro Alto, entre bares e regressos a casa com tudo virado do avesso. Já agora, se considerarmos que somos todos ibéricos, "Os Mares do Sul", Manuel Vázquez Montalbán, é um livro que não tem explicação, tal forma o estilo apurado - cruza uma cidade ao meio - deconstruíndo arrabaldes como fossos de elevadores. Bem, isto já vai mais extenso do que o inicialmente previsto e, se continuar, corro sérios riscos de acabar n' "O Segredo dos Chimneys".