Elevador
A cor da carne nas superfícies frias, a perspectiva possível entre três espelhos, uma porta automática de aço inoxidável azul safira, sensores e os passos no corredor. As diferentes proporções de organização e fé, além das normas iso 9001, do lacado branco e da dissolução. Depois do tapete, uma linha a sugerir o poço, mais o fundo de cigarros apagados, chaves que escapam e fábulas. Tudo demasiado seguro para se poder difundir, iluminado pelo halogéneo e com detecção de percurso.
Térmites
Não se gosta de térmites às primeiras. O aspecto indiferente e o lavor dolente, ineficaz no ladrilhado da sala, são, numa palavra, vazios. Imagens de trânsito na ponte e movimento na vci, ajustam-se num filme perfeito daqueles minutos isolados, em que assisto as térmites, enjoadas de alfombras e desejosas de um caminho entre a tijolheira, tentarem em vão dissolver a divisão. Antes de sair, encosto-lhes uma perna da mesa de jantar (arrasto-a até diante da televisão) e espalho serradura perto da frincha de onde saiem as resolutas térmites pequeninas, já prontas para a vida.
Durante o dia não estou em casa, de seguida são apenas suposições, mas parece-me que os insectos a quem confio a casa de manhã não são os que encontro quando regresso. Diria mesmo tratar-se de outra espécie, fisicamente semelhante às térmites, mas com tropismo diferente, quase comensais, sondando a inevitável pasta orgânica que trago da rua na sola das Timberland.
Waterloo Station
No fundo tratava-se de uma pequena seita decorrida da outrora influente comunidade penpal do Benelux. Distinguiam-se por trazerem uma ridícula folha A4 com a tablatura do Waterloo Station, sempre segura na mão esquerda, sempre nas rondas de fim de tarde de sexta-feira. Estas voltas, conhecidas no meio como o cerco da estação, eram mesmo o único traço de unidade; a tristeza que vestiam ou os sobretudos não passavam de simples adereços e camuflagem urbana, perpétua, dissimulada dentro dos Starbucks e estações de metro, anuviada entre toldos e chapéus de chuva. Desejavam entrever Terry e Julie e sentir a corrente que os levava para o restaurante do outro lado do rio, escutar o murmúrio desse caminho, atravessar nas mesmas ruas. A maioria nem conseguia tocar guitarra e os signos sobre a letra eram rudimentos crus no meio de uma formação clássica - ambientes com demasiados pianos Nelson & Wiggin e órgãos Rodgers Trillium para que tudo pudesse correr bem. Numa cerimónia simples e devota, tocavam a música à noitinha, num Casiotone guardado no quarto, depois de cumpridas as obrigações com a escolástica, o enfusto em aço, e a música de câmara. Quando se encontravam, nos tais cafés próximos da Waterloo Station, perscrutavam as faces recíprocas e pensavam como seria se, no concreto, encontrassem mesmo Terry e Julie.
O drama da manilha seca que embarca na primeira puxada.
A história conta-se em poucas palavras. Única do naipe, a manilha teve de ser jogada para assistir o ás. De nada serviram as altercações e obscenidades proferidas, ou mesmo as referências à indigência das cartas atribuídas ("não tinha nadinha, não tinha jogo nenhum" sic). A renúncia é sempre indigna, além de muito mal interpretada.
Jardim d'Inverno
A conversa tornara-se lenta e o Homem-Gargalhada preferia deixar tudo como estava. O toque resultara num sentido diferente; materializara a ilusão numa forma comum e a brisa desvanescera. A vida seguiria dentro de, melhor dizendo entre, um ou dois instantes. Entre o dever e o haver abria-se um fosso escarpado e o Homem-Gargalhada tinha cada vez menos vontade de visitar o fundo. Ali de cima, do dever, suponha que seriam apenas cactos e carcaças mas nem queria ter grandes certezas. A sombra projectada pelo haver enegrecia o carreiro e a terra ficava tão escura que era uma dor d'alma. Ninguém cuidara do jardim de inverno e a vegetação estragara-se: tinham vivido árvores de fruto no lugar da areia e eram sebes cuidadas, por vez da noite, que cortavam o horizonte.
Etno-chic
Era como se estivesse no andar de cima. Uma casa velha com madeira a completar a pedra e juntas que agudizavam os sons mais inquietos da natureza humana. Chiar, ranger, estalar, prenunciando o movimento de ultrapassar as portas, os passos sobre o soalho, o encosto na ombreira. A autoridade antes do autor, o destino que precede a fé, o som seguido da fúria. Mr Rain perdoaria com certeza a ilusão e um temperamento impaciente, gasto pelo desuso, exasperado com intrusos e abrigo em pavilhões multiusos. O interior, a fauna da terra, as sementes espalhadas no chão como pó, a divisão escurecida pela gelosia que encerrava a janela da sala - apenas uma meia dúzia oblíqua de feixes de luz perpetravam a casa. As mesmas frestas por onde espreitava o desbaste e o espaço entre as árvores. "Vê-se tudo parado" rumorejava, "anda aí o Desdouro, Mr Rain" insinuava muito mais do que afirmava, o efeito do murmúrio combinado com a pretensão de alastrar a voz por um espaço finito.
Era como se fosse o dia de abrir a casa, no início do Verão, quando Mr Rain tirava um molho de chaves da gaveta e dizia "amanhã passas pelo ribeiradio e arejas a casa. E fazes uma limpeza assim por alto". "Mr Rain, desculpe-me o atrevimento mas anda aí o Desdouro, como sabe". Mas era pior, muito pior, súbito e súbdito, vendo tudo parado, sentindo tudo contra-ordenado, resistindo ao orgulho, subsistindo à altivez. E subsistindo às declamações intermináveis de versos piedosos com epílogos funestos, "Ignomínia, ignomínia!", "Absalom, Absalom!", danças rústicas e fantasias de entrudo, os movimentos esquecidos durante quadragésima. Receava por ter tão pouca luz, hesitando ao descer as escadas, pressentindo falhas no sobrado e as farpas no corrimão, imaginando a dor da estilha no braço. Pensava no destino que precede a fé, "Hey mr Rain, a autoridade adianta-se ao autor?", mas concluía "Se cair, que seja com força, para passar os féretros e deixar de ver tudo parado".
Cá fora uma roda de mulheres repetia a ladainha "...de Alto d'Ouro sob o Desdouro, de rojo pelos barrancos, a resvalar por córregos cheios..."
Wednesday, November 01, 2006
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Pedro Lago
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