Saturday, November 25, 2006

Música - Refeição

Mote

Mais um almoço na Real Academia das Artes. Um verdadeiro summit de inteligências excessivamente diferenciadas na linguagem rock, inconclusivo, onde ninguém sabia o significado dos versos "the streets where Lola played - verry sexy, very sexy, okay okay".

- Mas procuraste no Google?
- Claro!
- Também não sei.
- O original é de uma tal de Inger Lorre. Lembras-te de uma banda, as Nynphs?
- Uma banda de los angeles?
- Sim. Foi a gaja que escreveu a música.
- A gaja tinha um hit, lembro-me do vídeo.
- Chamava-se "Sad and Damned". Meio gótico, meio drogado.
- Quando chegar a casa vejo se está no tube




A situação

- E atão? Vamos almoçar aquela cena nova?
- Ohpah, não. Vamos mas é comer um bife à cervejaria.
- Umh Umh. É melhor. Sempre é certo.
- Pois! Pa'qu'é'que um gajo há-de estar a inventar?

Foi esta discussão situacionista que me levou (mais o meu mano) à cervejaria comer um belo bife com manteiga de alho. Não é para me gabar mas, são 2 da tarde de sábado e já ouvi o "Postcard of a Painting" 2 ou 3 vezes e começo a ponderar se os Maximo Park não serão mais genuínos que os Libertines. O meu Irmão diz que eles imitam os Smiths (os riffs são mesmo meio copiados); eu penso que emulam os Père Ubu, apesar de não conhecerem os discos. Enfim, o "Postcard of a Painting" é uma música porreira para ouvir no carro depois de uma ingestão maciça de gordura (desconfio que nem absorvi o café, tamanha é a bulha entérica entre enzimas e lípidos). De resto, aviso que o Internet Archive disponibilizou o Scarlet Street, muita neve cai na serra e, se a minha escrita não voltar ao normal, este blog deixa de fazer sentido. Continua, mas deixa de fazer sentido.




Grandes Coisas

Ouvir, sem estar a contar, os acordes do Happiness Is a Warm Gun, depois do jantar, saídos de uma guitarra sem amplificação, e começar a cantarolar o refrão até chegar ao "I know no one (ever) can do me no harm". (acrescento sempre "ever" ao original).




Cambridge

O almoço estava realmente bom.
A divisão do lombo foi acompanhada de referências históricas a vedetas do rock comissionista, vendettas da real politik e vedações do ilusório. O primeiro momento foi a proposição: "pah, o fifth man de cambridge era o Syd Barrett" - aplausos, ovação - a provar que a máquina do almoço dá, realmente, pancadas (entre vírgulas para escapar ao authoring).

O segundo momento foi a brilhante interpretação do clássico "bem, tah no ir", lacónico, brevemente aborrecido e laico.




Nina Nastasia

São poucos os motivos válidos para sair de casa: a família, o trabalho e eventualmente um almoço com pessoal que realmente perceba de cultura rock, de preferência em restaurantes nos arredores de moscovo ou cervejarias em centros comerciais em deconstrução. A zona da cidade com rendas mais baratas foi preenchida por emigrantes de leste. Num desses repastos, depois de falarmos sobre o desespero e de como a realidade se torna ínvia e disforme, ao encerrar na necessidade de sustento da família a contradição de milhares de quilómetros longe de casa, desviámos a conversa para a Nina Nastasia e discorremos sobre a diferença entre a capa da edição original do Dogs (Socialist Records, 2000 0012 - cerca de 500 exemplares, milhões de cópias) e a re-issued print na Touch and Go (2004, TG246). A primeira é uma coisa desataviada, com um padrão entrançado arroxeado, violáceo, com a informação impressa a cinzento, lettering type writer: "Dogs", hífen by Nina Nastasia na linha de baixo. A re-edição da Touch and Go pode-se considerar luxuosa. É uma fotografia da Nina Nastasia segurando um copo meio cheio de um líquido trasparente (serve para água, vodca e bagaço), em pose, fixando a câmara, com uma expressão a meio caminho entre o hostil e o amargo e um vestido preto (ponteado a branco) decotado em V. Está um gajo ao lado (Kennan Gudjonsson?) a olhar para qualquer coisa que tem na mão. Não é definitivamente a fotografia mais bonita da Nina Nastasia (ver a biografia na Southern Records, a entrevista na Discorder ou a crítica do disco de tributo John Peel na Spoiled Victorian Child). O enquadramento é branco com a informação a negro e em relevo (classe!) "Dogs" by Nina Nastasia. O inlay tem as lyrics (magníficas, parece um blog dos bons) e os pormenores estão, distintos, na última página: a senhora Nina Nastasia toca uma Epiphone Riviera e uma Martin 0017 de 1962, Gonzalo Muñoz toca uma serra musical Luthier de la Banlieue Parisiene, Dave Richards um baixo upright c 1890 e Kennan Gudjonsson um piano Nelson & Wiggin c 1901.




Anton Newcombe

A discussão ao almoço centrou-se nos Brian Jonestown Massacre e na eterna questão: será o Anton Newcombe um génio ou, simplesmente, drogado. O meu interlecutor, um dos grandes instrutores do Rock a operar nos cafés e restaurantes de Portugal, pendia para os problemas de adição do lead singer; eu, num registo mais pachólico, lá dizia que as condições não eram mutuamente exclusivas (choco de todo, portanto). Os jaquinzinhos, no fundo do prato, não diziam nada, tal era o apetite e celeridade de ingestão. Está claro de ver que a conversa não chegou a conclusão nenhuma e, aproximando-se as duas da tarde, rematámos com o cordial “bem, está na hora".





A pretensão

Há uma parte em que percebo: let's pretend we don't exist / let's pretend we're in an article [?]
Claro que não podia ser, e os versos corrigidos são: let's pretend we don't exist / let's pretend we're in antarctica [!]

É a folgança de deslindar as intrincadas tramas pop e os mistérios politeístas do pessoal das lyrics. Claro que me custa sempre muito menorizar o memorizado; afinal de contas foi uma viagem inteirinha churrascaria-casa a trautear o let's pretend we're in an article, imaginando antigos artigos de lei onde os elementos da música se inscreveriam, relacionados à la minute com o "ostracismo" da prefeitura de Atenas. Let's pretend we don't exist / let's pretend we're in an article era bem esgalhado, não tenho dúvidas, mas o equívoco, como sempre, fica longe da realidade. Frio, muito frio: tal qual a antártica que começa aqui (seja lá o que isso for).

errata: o primeiro sujeito do post é uma música de uma banda moderna; o último é a tradução do título Antarctica Starts Here, J. Cale, Paris 1919 (o título; que não o local ou a data de uma conferência de Paz).




Faixa

- Então, o que é achas?
- Pah, não sei. Fico sempre muito indiferente a estas músicas que não desenvolvem.
- Pois. A música não vai mesmo passar disto. (pausa) Mas o álbum é diferente... vai evoluíndo entre cada faixa.
...

O problema de falar de música num fim de tarde com o sol a dar de frente. Acomodados à lassidão, os críticos resvalam para a ficção - essa demanda - contemporizando com texturas alegóricas, conceptualizando por aí, sem grande critério. Por bem, poucos destes devaneios serão copejados para posts.

Pedro Lago