Saturday, November 25, 2006

Música - Reversão

I'm set free (no presente)

É a música mais bonita dos Velvet Underground. O leitmotif não me interessa. É suficientemente vaga para poder ser adoptada por um executivo descontraído durante o golf, uma família unida a caminho do algarve ou um estudante feliz no final da época de junho-julho. Idealmente para usar de manhã, antes da saída para o trabalho, depois de um bom pequeno-almoço e das notícias na televisão.




Mero

A tradução epistemológica das sondagens, après Nicholas Grotte: Father, why are all the children weeping? / They are merely crying son / O, are they merely crying, father? / Yes, true weeping is yet to come. Apetecia-me voltar a escrever sobre bom senso e economia, a sensibilidade ímpia da London School of Economics and Political Science. Mas, perdi o fôlego para a postagem de intervenção: mexo-me melhor na ilação e citação, o chamado futebol apoiado de passes curtos, colado ao soalho. "Merely Crying" é pungente e aflitivo - nem imagino o que ainda pode estar para vir.




Mark Linkous

There will come a time gigantic
waves will crush the junk that I have saved
when the moon explodes or floats away
I'll lose the souvenirs I made


la la la

I lay down on the grass and let the insects do their thing.
she covered me with wings and held my head and said 'poor thing'.

Mark Linkous


A simplicidade atinge-se assim. Expandindo a pronúncia em gigantic, recolhendo ao monocórdico em waves e continuando até la la la.




Starfire

Aqui há uns tempos fazia um esforço desgraçado para vir a casa à hora de almoço para ouvir o "Starfire" dos Low. Era um shotzinho a meio do dia que me dava forças para continuar. Tinha o sonho espacial de planetas limpos, extraterrestres, naves e colónias longínquas. A aspiração de pôr a tralha na mala do carro, partir e deixar a terra em pousio. A música está na jukebox do http://www.chairkickers.com/. E não, não é sobre uma estação de rádio de um amigo do Alan Sparhawk. É uma volta de ten thousands miles to go before i sleep sossegado.

i'll load the back and you can drive
broken bodies all the time
let's take a ride
starfire tonight
ten thousand miles away
away

Alan Sparhawk





cÉU

Esta manhã, durante os 10 minutos em que esperava o efeito do café no sistema, carreguei na tecla 5 do comando da aparelhagem e o resultado foi o Little Arithmetics a sair pelas colunas. É um truque muito porreiro. Com a tecla 1 e 5 consegue-se o Wake Me Up Before I Sleep e um bocado do cÉU na terra. A versão dos Walkabouts (um dia destes falo do mítico Man from Reno, Scott Walker et al.) não está mal, mas o original.. é qualquer coisa.

...I'll promise that I'll concentrate
On only the last frame
Cover only one sound
Some kinda sweet...


De manhã é mesmo assim.

Não há nada mais europeu que Deus. Não imagino o outro Berman a escrever sobre religião às sete e meia da manhã, até porque é um Silver Jew, não é Belga ou Holandês, e não se chama Barman. E quando me dizem que os leitores de Silver Jews não conhecem a poesia avantgard do David Berman, eu respondo "tá bem", mas penso que não há-de ser bem assim. Porque This is the voice of sand, / the sailors understand / There is far more sea than sand / There is far more sea than land. De qualquer forma, os leitores de Silver Jews vão ao clube de vídeo, vêem o Any Way the Wind Blows (e até gostam) e percebem a parte ambient-drum'n'bass dos segundos 10 minutos do dia. E concentram-se numa frame e dizem coisas como "Não há nada mais europeu que Deus" porque têm a certeza que sim. E encomendam o Tanglewood Numbers para continuarem o dia.









Come In

Come in Come in For one last dinner That I will make you

Come in Come in It is a small one For I am no cook

You have a long way Where you are going No longer welcome
And I am happy Yes I am happy You will be leaving Things will be changing
For you

You have done much for me But now you're leaving It's back to Egypt
That you are going They are not family They are not friends But a false history
And you aren't sorry

Come in Come in Or am I silly For saying such things Am I implying
That you must come again

Hoje voltei a ouvir o Come In. A seguir ao Trudy Dies (uma música horrível que não merecia as chord changes mais tristes do sadcore), quase em repeat. Claro que me lembrei do vídeo que passava num programa do canal Viva! (acho que tinha ponto de exclamação). Era uma casa em miniatura (em cenário - não era fechada) com uns bonecos dentro que construíam uma história. Por ter decifrado o enredo num vídeo patético, nunca pensei nesta refeição como a "Última Ceia" (a interpretação aceite pela generalidade dos estudiosos da obra de Will Oldham). Para mim será sempre o Cantar de Emigração; a compreensão dos que sentem a necessidade de deslocação; a justificação da coragem empregue no acto de abandonar.

Acabo sempre por valorizar a resignação dos último dois versos e repudiar o gesto de renúncia dos que mudam. Atribuo um sentido ímpio e demasiado severo a esta música. Julgo a iniquidade da culpa final e exagero derramando-a (inapelável) sobre as derradeiras unções, quando não não existe espaço ou margem para redimir os defeitos da vida. É demasiado Velho Testamento para uma música; mesmo que seja sadcore; mesmo que possa escrever um livro a partir de 10 linhas, um vídeo e a voz do Will Oldham.




Bill Callahan

Esta semana o Bill Callahan vem tocar a Portugal. O Blitz (que não comprava há uma série de tempo) tem um artigo realmente bom sobre o evento. De todos os discos Lo-Fi Self-Obsessed que tenho os do Smog são os mais difíceis. À excepção do último (um instant classic), arrependo-me quase sempre de os comprar. Penso que o gajo endoideceu de vez. Passado uns meses, já estou satisfeito e coloco-os nas prateleiras que ficam mais à mão. O (Smog) é um dos maiores. Num Celebrity Death Match perdia com o Kurt Wagner mas seria tão renhido como o Triple H vs Batista na última Wrestlemania.
É engraçado que exista uma convergência para o vocábulo "fetiche" quando se descreve a música do (Smog). Luís Guerra no tal artigo do Blitz escreve "fetiches incompreendidos"; no All Music Guide falam de "bizarre fetishes". E as Q, PitchforMedias não se desviam muito dos epítetos e prenúncios de morte, obsessão, falha, perturbação, malogro e o diabo a 4. Os incautos dizem que o Smog é divertido ("Dress Sexy at My Funeral") mas esquecem que o Smog é "4 real". Na sua música, Bill Callahan não dá garantias nenhumas de diversão que não sejam as manobras militares. E é por isso que o Smog é um dos maiores.
Um amigo meu, o maior especialista em Smog que conheço, diz que o Red Aplles Falls é undisputably o melhor disco do Bill Callahan. Eu alinho pelo A River Ain't Too Much to Love (nem que fosse só pela capa). É mais agradável; estabelece uma espécie de tréguas com o interlocutor. Afinal de contas, Bill Callahan canta que um rio tanto fertiliza como arrasa com a várzea. E tem o Say Valley Maker:

With the grace of a corpse
In a riptide
I let go
And I slide slide slide
Downriver
With an empty case by my side
An empty case
That’s my crime

And when the river dries Will you bury me in wood Where the river dries Will you bury me in stone

So bury me in wood And I will splinter Bury me in stone And I will quake Bury me in water And I will geyser Bury me in fire And I’m gonna phoenix


Em Outubro vai fazer uma tour com a Joanna Newsom. Nós não temos essa sorte. Uma versão Smog do The Book of Right-On faria-me mudar todos os afazeres para ir a um concerto a Lisboa a uma Segunda-Feira.




Two Pale Boys

Não tendo assunto e apetecendo-me postar qualquer coisa, vou escrevinhar sobre a versão do "Surfer Girl" que o David Thomas e os Two Pale Boys tocaram ao vivo na MTV. Não estou a confabular nem em delírio. Durante 8-9 minutos a MTV esqueceu tudo e passou o showcase dos Pale Boys.

O David Thomas, enorme, de fato, mais Captain BeefHeart que o próprio, cantou preenchendo o espectro; desde a Soberba à Graça, cruzando todos os poderes da Igreja da Geografia do Som. Acabou em desespero, diria-se drunk at the pulpit, mas redimido. No final apenas gritava, chorava. Por vezes tocava o melodeon produzindo um som melado; porque a voz era apenas a projecção de uma gruta funda, demasiado escura, demasiado abandonada. Passo a citar o insuspeito The Financial Times "Grown men cried" - acerca de um concerto na Escócia por essa altura. Nota para memória futura: citei o The Financial Times. Substituía a Surfer Girl original por uma Suffer Girl e prometia "We could ride the surf together; While our love would grow. In my Woody I would take you everywhere I go. Do you love me do you surfer girl". Lancinante, aflitivo.

O Andy Diagram (gorro vermelho num uniforme madchester) é um dos maiores e vou direito ao assunto: o gajo passa o som do trompete por efeitos de eco-delay, reverb, harmonizers, filtros e por vezes um sample. (c.q.d. é o maior). Não consigo imaginar um controlador mais poderoso para construir landscapes e texturas. No "Surfer Girl", que vos falo, nem recorreu ao layering. Tocou o solo mais amplo que alguma vez saíu de um horn (apenas a ressalva de existirem muitos estilos musicais que desconheço). Foi magnânimo, imparável. Deixou tudo para trás. Sendo a força das notas que se sucediam suficiente para formar um novo mundo, o Andy Diagram, perfeito, modulava os filtros e estendia os delays para que esse novo mundo surgisse imaculado. Durante muitos minutos.

Keith Moliné apresentou-se com uma boina de ir cortar madeira. Segurou a música com a sua guitarra Twang em grande estilo. Tocou os acordes de forma infalível (como diz um amigo meu quando quer descrever segurança- "é dinheiro no banco"). Não inventou (o Andy Diagram estava livre) e foi avançando na sequência que em tempos o Brian Wilson determinara.

Lembrei-me desta música porque o meu Irmão arranjou uma gravação de um concerto da golden age dos Two Pale Boys.

Há um entrevista muito interessante aqui http://www.ubuprojex.net/archives/pbvue.html

Nota. A versão do "Surfer Girl" que vem no Raygun Suitcase (Père Ubu- 1995) é porreira; mas não pode ser confundida com a versão do David Thomas and the Two Pale Boys



Arise, Therefore

A Obsessão tratada por Will Oldham, ainda nos tempos dos Palace Music. O Arise, Therefore começa com how could one ever think anything's permanent e a partir daí é downhill para lado nenhum. A insistência no Poder e nas Usuras até à dissolução (uma palavra sinónima, derivada de "solução", no vocabulário de Oldham).




O jogo de sueca

O jogador, para mitigar a perda, serviu-se daquele excelente Quinta da Leda 2001, degustando o desgosto, e puxou o cigarro para o canto esquerdo da boca, armando um ar circunspecto de quem disfarça o pânico contando o jogo. As naves que construia não serviam para ganhar; vogavam na maré baixa desfazendo-se ante as undae do mare.

Um dos adversários, imperturbável, com os dedos metálicos frios, via as limalhas de ferro macio jogadas sobre a mesa do jantar. Eram as cartas que deslizavam sobre a toalha de papel, cheia de nódoas. Não tinham sabido servir-se da cabidela.

com partes decalcadas de uma das grandes músicas em pt: "Sete Naves" Letra de Rui Reininho.




Michael Hurley

Oh the werewolf, oh the werewolf - Comes a steppin’ along
He don’t even break the branches - Where he’s been gone

He goes out in the evenin’ when the bats ’re on the wing
An’ he’s killed some young maiden before the birds sing

For the werewolf, for the werewolf - Have sympathy
’cause the werewolf he is someone - Just like you an’ me

Once I saw him in the moonlight when the bats were a flyin’
All alone I saw the werewolf and the werewolf was cryin’
Cryin’ nobody, nobody, nobody knows
How much I love the maiden as I tear off his cloths
Cryin’ nobody, nobody, knows of my pain
When I see it has risen that full moon again

For the werewolf have pity, not fear, an’ not hate
’cause the werewolf might be someone that you’ve known of late

And only he goes to me, man this little flute I play. All through the night, until the light of day, and we are doomed to play.

Michael Hurley


Conheci a música pela versão da Chan Marshall e passou algum tempo antes de saber que Werewolf significa Lobisomem; e demorei a perceber o crime inscrito nas lyrics(na versão do You Are Free a letra não é tão explícita). Consegui ouvir o original há uns dias e fiquei impressionado. Gosto muito do verso "He don’t even break the branches - Where he’s been gone". E da maldição de tocar até à luz do dia. É uma música muito bonita e o singingsongwritting não é simples. Não me lembro de alguma vez ter lido uma letra que falasse de piedade. Possivelmente o Johnny Cash raspou o tema no Hurt. E o Bad Seed repete-o com demasiadas palavras para formalizar a estética (não conta). A piedade invocada por Michael Hurley é um acto generoso e inconfundível com o juízo ou muito a menos condenação, indefinida, sentida sobre a própria indulgência. Era mesmo uma forma diferente de ver as coisas; é difícil imaginar os dias da mão aberta, do livre arbítrio e da vontade incondicional. Michael Hurley precisa de um press release a acompanhar um disco de 1998 quando em 1960 já fazia parte da Greenwhich Village.




O primeiro disco do ano

O primeiro disco que ouvi este ano foi o Tanglewood Numbers (e a primeira música o Punks in the Beer Light). Hesitei muito antes de carregar no play. Foi a indolência (vulgo preguiça) que me impediu de levantar da cama para ir buscar o Superwolf ou o A River Ain't Too Much to Love. Claro que o disco dos Silver Jews é vintage, mas, como obra poética, será sempre inferior.




The Carny

A música não pára realmente. Mas há um momento no The Carny em que o céu e a terra ficam quietos: And the carny had a horse, all skin and bone, a bow-backed nag, that he named "sorrow". Depois regressa tudo ao normal (aproximadamente normal, a música ainda vai a meio).




Peter Laughner

Leio livros para adormecer. Ontem peguei no "Psychotic Reactions and Carburater Dung" uma colecção de escritos de Lester Bangs (génio fundador do estílo literário crítica rock). Teria muitas dúvidas se me dessem a escolher entre o talento do Lester Bangs ou do Sterling Morrison. Não sei mesmo.

Reli e reli a elegia escrita ao amigo Peter Laughner, o primeiro guitarrista dos Père Ubu (gravou 30 Seconds Over Tokyo, Heart Of Darkness, Final Solution e Cloud 149 para além de uma carreira com os Rocket from the Tombs). Um erro pois tornou-se-me difícil conciliar o sono; (estava preocupado com outras coisas).

"Later on he reminisces about his college days: "all my papers were maniac droolings about the parallels between Lou Reed's lyrics and whatever the academia we were supposed to be analysing in preparation for our passage into the walls of higher learning. 'Sweet Jane' I compared with Alexander Pope, 'Some Kind of Love' lined right up with T.S Eliot's 'The Hollow Men'..."

Mais tarde, à medida que Lester Bangs não questiona e não se penaliza pelo percurso descendente de Peter Laughner, introduz a figura do alibi:

"Peter Laughner had his private pains and compulsions, but at least in part he died because he wanted to be Lou Reed. That certainly was not Lou's fault; it was Peter's. Though he was a casualty of times, he brought it all upon himself"
Como um desaparecido em combate, no cumprimento do dever. Um mártir, um sacrifício humano da religião rock.

"Peter's death was the end of an era for me - an era of the most intense worship of nihilism and deathtripping in all markeatable forms"




The Bewlay Brothers

O estudo da música popular conduz-me, de quando em quando, a locais tão remotos como os grupos de discussão sobre o significado da letra do The Bewlay Brothers. Existem inúmeras cogitações e asserções alternativas da interpretação, razoavelmente consensual, que o texto aborda a impressão/decalque provocada pela esquizofrenia de Terry Burns, meio irmão, no espírito de David Bowie. Assim, e a partir do nome da tabacaria que fez parte da sua infância, é construído um poema delirante, intencionalmente improvável e a maior parte das vezes assustado, dominado pelo medo. Outras versões, mais ou menos fastidiosas, incluem rituais de mutilação e outros sacrifícios em solo consagrado, são quase sempre mirabolantes e irrelevantes.

"He's chameleon, comedian, Corinthian, and caricature" resume o jogo de espelhos, multiplicidade, como em "doppelgänger", um conceito sci-fi de existência simultânea de um mesmo átomo em dois sítios, "an exact but usually invisible replica", percorrendo o mesmo caminho. Faz sentido; e é tão razoável como a assinatura de Bewlay Brothers nas produções e "publishing".




Arise, Therefore

I watch things painted on public walls, now
But I see other things as well, behind
But right fuck in front of my spirit is how
The real road's laid out in a line

"Kid of Harith", música 5 do Arise, Therefore. (Palace Music)

Will Oldham, nesta fase com uma escrita confusa, quase indistinta da linguagem corrente, inventa uma possibilidade desferida em "pode alguém ser quem não é?". Dos melhores momentos do método Oldham. Questionar e exemplicar, limitando o vocabulário aos "how" repetidos.




Iron & Wine

Será o Samuel Beam sadcore?
Sendo um purista digo que não - falta-lhe a Tarnation necessária. O códex estético da mui nobre arte é muito preciso para admitir desvios superficiais. Mesmo que o resultado seja um disco melhor.
Escolho os discos do Iron & Wine para ouvir enquanto leio o "Debaixo do Vulcão", sinal de grande relevância, por um qualquer instinto que espero ter definido no final deste tarde. Mas, e vou adiantando, não me parece próprio de um músico de sadcore escrever um epitáfio; mesmo que seja um poema intocável:


Will you say when I’m gone away
"My lover came to me and we'd lay
In rooms unfamiliar but until now"

Will you say to them when I’m gone
"I loved your son for his steady arms
We both learned to cradle then live without"

Will you say when I’m gone away
'Your father’s body was judgement day
We both dove and rose to the riverside"

Will you say to me when I’m gone
"Your face has faded but lingers on
Because light strikes a deal with each coming night"

Each Coming Night por Samuel Beam (Iron & Wine, Our Endless Numbered Days, Sub Pop)





Arise, Therefore

Há pessoal que se mete a caminho de Dakar; eu prefiro ir buscar discos já meios esquecidos. Cumpri hoje a terceira etapa no deserto Arise, Therefore. Não foi como se estivesse em Nouakchott (o disco é incomparavelmente mais frio e chuvoso); e não corro contra nada (esporadicamente o tempo, o mau entenda-se). O gps continua sem funcionar, pelo que sou obrigado a seguir os mapas celestes e confiar em céus limpos de fácil leitura. Afinal de contas, Mogadíscio fica bastante fora de mão e queria começar o rally "School of the Flower", dos Six Organs of Admittance, o quanto antes. O pior mesmo é o tédio: são muitos quilómetros seguidos de areia, ar e argon (número 18 da tabela periódica, elemento que não serve para nadinha). How can no final thing come, diz o Will Oldham, grupo sanguíneo desconhecido e encarregue da navegação.

O postador reconhece este texto como profundamente irrelevante, mais inconsequente que o argon. Foi sua opção carregar no quadrado "publish post", e desta forma manter a coerência redatorial, porque, regra geral às onze e tal da noite, gosta de escrever meia dúzia de linhas para pôr no blog.




Os discos certos

Não é de forma impune que me ponho a falar de música electrónica ambiental - censuro a minha falta de conhecimento do assunto (tenho a sorte de me emprestarem os discos certos). A emissão segue dentro de momentos com a habitual programação low-fi, mas antes gostaria de postar 2 ou 3 coisas sobre o Ambiant Otaku (Tetsue Inuoe). A descrição lê-se no AmbientMusicGuide.com: If there's such a thing as softcore techno, this is it. É um disco valioso (as edições de 1994 são leiloadas por 100 dólares), especial-espacial, de exploração-contemplação. Da mesma forma que não faço uma observação decente numa galeria, também não consigo objectivar a audição do Ambiant Otaku. Provavelmente existirá uma relação entre os planos de tinta nas telas, e a sobreposição de sons nas faixas do disco.
Para travar os exageros e desmandos em torno da primeira edição (limitada), foi lançada em 2000 uma nova série, com a referência AW 017, sem limite do número de exemplares e com um inlay diferente ("Upon seeing Ambiant Otaku's cover, you anticipate a more spiritually-oriented album", no site 2350.org). Otaku, conforme explicado por Inoue numa entrevista, significa "nerd, a collector. In Japan, it's used as a negative term"; quase simbólico.




She's Good Enough to Be a Real Actress

Here’s room five four six, It’s enough to make you sick
Bridget’s all wrapped up in foil, You wonder if, She can uncoil

Here’s room one fifteen, Filled with sm queens
Magic marker row, You wonder just, How high they go

Here’s pope dear ondine, Rona’s treated him so mean
She wants another scene, She wants to be, A human being

Pepper she’s having fun, She thinks she’s some men’s son
Her perfect loves don’t last, Her future died, In someone’s past

Dear ingrid’s found her lick, She’s turned another trick
Her treats and times revolves, She’s got problems, To be solved

Poor mary, she’s uptight, She can’t turn out her light
She rolled susan in a ball, And now she can’t, See her at all

Drop out, she’s in a fix, Amphetamine has made her sick
White powder in the air, She’s got no bones, And can’t be scared

Here comes johnny bore, He collapsed on the floor
They shut him up with milk, And when he died, Sold him for silk

Here they come now
See them run now
Here they come now
Chelsea girls



Chelsea Girls (Lou Reed, Sterling Morrison)


A música foi composta por Sterling Morrison e Lou Reed e originalmente cantada pela Nico. A introdução é construída em torno de uma progressão de acordes menores que anunciam o desencanto e denunciam a natureza estranha da voz da Nico. A pronúncia ostensiva acaba, sobre os meus ouvidos, por superar a harmonia triste e a escala dorian percorrida pela flauta: realça todo o desenraizamento e alienação dos moradores do hotel chelsea. Singulares pelo sacrifício, dor e mutilação.

Pedro Lago