Encontrou 3 folhas reproduzíveis numa gaveta sob a secretária, e, num gesto de aborrecimento simulado, levantou-se da cadeira e adiantou-se para sala das fotocópias, a ultima thule. Ficava contrariado ao percorrer o território do escritório, atribuindo-lhe noções profanas e dimensões mitológicas, sentindo-se muito desconfortável na versão moderna da ilha do minotauro. Os recursos optimizados e as capacidades instaladas, o decalque do soalho flutuante, entre corredores separados por tabopan, estruturas de aço e secretárias alinhadas, as estremas nos tampos de aglomerado reluzindo epóxi pigmentado e monitores lcd tft. Cumprimentou os colegas, as workstations e as plantas que enfeitavam os cantos. Recusou um café, respondeu "não posso" a um convite para sair à noite e pensou duas vezes no livro que Vrinda tinha no canto da mesa: "The Book of Right On", autora desconhecida. Cumprido o desiderato, chegado ao Valhala, fechou a porta e procedeu ao telefonema, em estrita observância das normas comunitárias e direitos conexos.
Os primeiros instantes da conversa foram indefinidos, vagos, com a dificuldade de sempre em contextualizar uma chamada no telemóvel. A voz do outro lado era indistinta, amorfa, quase anidiana e a compressão tão intensa que quase não circulava informação - demasiada emoção retida nos filtros das operadoras.
A conversa decorria entre "estamos sozinhos" e "maldita terra" não chegando a parte nenhuma. Regressava ao início como o vinho que volta para a garrafa, ainda pródigo, depois de todos os perdões e desculpas. E era tudo verdade, sentia-se cada vez mais desgarrado, mais estrangeiro, mais perdido à hora do almoço no pátio de St Olave Jewry, sentado num banco, atafulhado de guardanapos e revistas, evitando as nódoas dos express kebabs e das galinhas fritas do kentucky. Apetecia-lhe um mergulho numa praia colonial francesa.
Também falavam de sangrias e bayucas, gracejavam ("a tua cama é uma teia", "onde ficarás sozinho esta noite"); e chegavam a lugares lúgubres, cheios de gente, música soturna e explicações condescendentes.
-Então?! Combinamos às seis no Alba?
-Está bem, posso é chegar cinco minutos atrasado...
-Então seis e um quarto?
Lucinda triunfara e despachou o telefonema com "sharp"ness, coroando a questão da saída e evitando os aracnídeos (era certo que, se o deixasse falar mais uns minutos, começaria com histórias pestilentas de aranhas e insectos).
Shamrock desapertou o garrote, convinha que alguma coisa chegasse ao cérebro, e regressou à secretária seguro que, enrolando o fio do novelo de Theseus, encontraria o seu lugar ainda vago. Além do trabalho a meio, faltavam-lhe ainda as apostas nos greyhounds; assim atravessou a sala e os colegas exibindo um esgar de aborrecimento: a superfície envernizada dissimulava o interior crispado "porque é que as agência fecham tão cedo?". O site da corretora trazia-lhe azar e desconfiava dos pagamentos online com o seu cartão de crédito. Tinha quase a certeza que as corridas seriam em Mildenhall. Apostaria no Nostalghia e no Zerkalo (uma reverse forecast); eventualmente arriscaria uma trifecta se o Offret corresse. O Stalker, apesar de ter ganho a Birmingham Cup e a corrida de Sunderland, estava em baixo de forma.
Fez uma pausa - aproximou-se da janela.
Tinha por cenário a esquadria de vidro e as pedras de mosaico laminado com que tinham construído os edifícios dos escritórios. Tudo que o via projectava o colectivo, envergando o plural com a mesma fatalidade, quer se referisse ao mausuléu erigido a Augusto e Lívia, quer apontasse para as plataformas fundeadas no Mar do Norte (pobre mar do norte). O próprio Céu encerrava aquele mistério barroco de nuvem branca sem fim, povoada de substâncias aliviadas das dores, alijadas de pesos mortos, vaporosas e, numa intensa comunhão - O Céu implicava partilha de espaço. Voltou-se encarando o open space do escritório; murmurou "in heaven everything is fine, in heaven everything is fine; you got your good things and i got mine". Sentiu na ladaínha uma oração por uma distância no Reino de Deus, onde as almas se podiam recolher e velar por si.
O monitor piscava a luz verde na base indicando o modo de descanso, suspensão. Cinco minutos sem dados-informação e entraria em "save mode", fechado-se num fundo imperscrutável, denso. Desfeito com o toque como o reino do coronel Kurt: bastava um abanão no rato e o irradiar policromático sobrevinha, cintilando o sol por entre a densa vegetação. Era um truque simples mas que Shamrock gostava particularmente; remetia-o para o instante dos jogos de flippers, quando a bola fluía para o abismo, e uma pancada de lado, combinada com um puxão, garantiam a sobrevivência. Muito da vida era assim: empurrões. E ainda lhe faltavam três ou quatro empurrões para acabar o dia.
Enquanto se insinuava, de forma judiciosa e com um critério escolástico, por entre os menus e drop-downs, reflectia sobre os seus monikers, imaginando os emolumentos e mais-valias se, por hipótese, adoptassem um comportamento semelhante ao dos monitors, desligando-se na rarefacção de dados-informação. Era mesmo o sonho de um dia existir depurado de todos os despojos de um century of fakers. Encontrava-se saturado de deixas, encenações e legados, mil anos de cultura, capas da Dazed 'n' Confused e referências em ponto de cruz. Podia dar-se o caso de estar perante o "Pánico de Data - Fase Recessiva", entidade reconhecida, de evolução insidiosa, etiologia desconhecida e evolução frustre, apenas autodepreciativa. Assim mesmo, sem o habitual e florido quadro clínico da forma activa, flagelante, cursando com comportamentos destrutivos.
O discussão centrava-se sobre o conhecimento. Seccionando o dharmavinaya, discernindo entre doutrina e disciplina, Shamrock propunha que não havia semelhante coisa como mau conhecimento (expressa na versão bilingue "there's no such thing as bad knowledge", soava a um refrão vegan rock comunitário-continental). Do outro lado, com maior nitidez, realçavam a realidade e explicavam "um conhecimento que não serve para nada, é mau". A questão estava estilizada sobre licenciar a LSE - London School of Economics, e o livre acesso dos aspirantes ao senado, passando das equipes B para a república. Shamrock sustentava que o conhecimento era sempre útil, focando o caso de um amigo que anotava num caderninho toda e qualquer forma de knowledge, configurado como contacto telefónico feminino, e que nunca se tinha dado mal com isso. Responderam-lhe com alusões à justiça divina e facturas de telemóvel e ele ficou calado. Transbordava sempre com a matemática, era português, sucedendo, e por ordem cronológica, falta de aporte de informação, mutismo, desvio de conversação (desconversação in extremis). O cálculo da qualificação para o Itália 90 (dificultado pela variável inconstante dos golos fora) fora a última grande operação de álgebra realizada e deixara-o sem grande vontade de aprofundar os estudos aritméticos. Entretanto, a insistência em materializar dados e as referências a escolas de pensamento orientais, eram rebatidas. À medida que somava normas de regência de bhikkhunis e simples "nãos", Shamrock alheava-se seguindo um esquema já tipificado em "my worlds getting bigger as my eyesight gets worse". Lucinda, do outro lado da mesa, citava Iris Murdoch, estabelecendo os degraus do conhecimento: a poesia que substituiu a oração, que por sua vez, substituiu a magia derrotada da infância. Não havia maneira nenhuma de sair do polígono (a discoteca era poliédrica) e o cinquenta cêntimos cantava: we gon' party like it's yo birthday / we gon' sip Bacardi like it's your birthday. Desistira da conversa enredado pelas mensagens subliminares da letra (sorvia o Rum Flavoured with Lemon em pequenos shots), o desinteresse pelos assuntos que as amigas de Lucinda tratavam e o echo delay na sua cabeça: poesia, oração, magia.
Afastava-se apenas para encontrar batalhas mais distantes. Os lamentos zurziam-lhe agarrados a reconsiderações apologéticas e remissões elípticas. Podia-se pensar que cambaleava - uma interpretação livre dos passos inseguros e trajecto indefinido. Notava os cristais sob os olhos das mulheres; um qualquer efeito de sedimentação do choro, seco pelas luzes multicolores trémulas dos Strobes Chauvet CH-750, dos Laserbursts e das 20 inches Mirrored Discoballs. Shamrock reconhecia tratar-se de maquilhagem brilhante, mas limitava-se a seguir profecias antigas impressas em vinis: "it'll end in tears". Floating into the night, as lágrimas formatavam, o álcool configurava e as sleeping pills haviam de frenar a instabilidade do sistema, corrigindo os problemas de memória. As falhas, preenchidas com saibro e disfarçadas por resina sintética, continuariam a fender os dias seguintes, sulcando o embotamento e grassando o ressentimento. Entretanto, o mestre de cerimónias abandonara o house minimal, tinha tido, entre os convivas, pouca receptividade, e pusera a tocar uma versão moderna do "The Tide is High" dos Blondie. Era melhor assim: todos reconheciam que as marés iam altas e as raparigas sempre podiam anunciar não serem do tipo que "desiste facilmente". O verdadeiro motim surigiria quando os djs passassem o Union City Blue, definindo o verdadeiro impasse exposto no verso "Oh ho what are we gonna do?".
Sentia que poderia conduzir por milhares de quilómetros; a reflexão era apropriada de "and the way i feel tonight i could die and i wouldn't mind", e contrapunha-se à inoperância experimentada quando circulava por corredores cingidos por biombos de tela cinza neoprene, e vias definidas em traços rodoviários com separadores centrais metálicos. Sabia que a melhor forma de desaparecer (completamente) era perder o interesse. O conceito ocidental da nebulae de Orion, sem efeito e ineficaz, visível nos dias de chuva e vento e nas jornadas de catarse solar. Também a derivação autofágica do esquema litúrgico de Osíris, retomando ao mesmo, perpetuando sem alteração, absorvendo os poderes do próprio.
Precisamente indiferente ao equador celeste, a declinação de menos 5 graus e 25 centésimos não seria corrigida, uma indulgência que sobreviveria em fragmentos e remeniscências, brilhando depois do degelo, passando pelo carbono no tempo. Tinha visto a alegoria do velho gaiteiro, Saraband - assim se chamava, e reparara na forma como a clemência se substituia a Deus na ordem "if man is five / then the devil is six / and if the devil is six then God is seven". Love Is Stronger Than Death, Death Conquers All, proposições que não careciam de demontração (na verdade não careciam de nada, tal qual as Irmãs da Caridade).
Era mesmo a possibilidade de estar cinco minutos sem fazer nada, overdiaries e overbeings, sobre-escritos e seres-acabados no módulo "diz-me como me sinto". Pronto para mais um dia cheio de dread, un autre jour au paradis, parado diante de dois elevadores avariados num prédio em Belvedere Road. Hesitava entre a escadaria e as ruas do Bankside, entre o simples deslize e o deslizar pela vida em charme (sliding through life on charm), indeciso entre a porta da casa e a serventia da rua. A metodologia passava por carregar regularmente, seguindo um compasso não muito estrito mas certinho, nos botões de chamada dos ascensores, e esperarar por um efeito na mecânica, um nexo na biologia, pelas luzes. Eventualmente arreactivo (irreactivo para o caso), restava-lhe a profunda meditação sobre flyers, a nova literatura panfletária, ilações tipo critic's notebook do festival de cinema de Tribeca e ilusões. Persistia-lhe na vontade o regresso a Lx (nem mais), ignorando toda e qualquer forma de oportunidade, um plano de execução sumária dos sinais harmónicos da voz: por ordem, bom-senso (a oitava), brio (a quinta perfeita) e orgulho (o terceiro tom menor). Trataria depois de esmerilar os pormenores dissonantes e desenquadrados da escala cromática, ufânia e o faustu, discerníveis na massa do som apenas com os timbres mais puros, e que seriam polidos em terapias suaves de exposição prolongada. Certa vez dissera, "eu, se tivesse mesmo talento, desperdiçava-o neste instante". Não perceberam e responderam-lhe mal, com um seco "go dig yourself"; cada vez mais tinha a certeza disso.
Já estava dentro de casa e ligou a televisão. Os hypes não seriam mesmo de fiar; mas as ancas (hips) , essas definitivamente não mentiam.
"Na América é tudo diferente - os conceitos, principalmente. Mesmo contextualizando. Imaginem um bar com balcão corrido de madeira, bancos altos, duas mesas de bilhar, setas, o "Like a Hurricane" em fundo, barulho, muito fumo e eis que, o jack chega-se à jane e diz 'i can tell you taste like the sky cause you look like rain'. A continuação da história é irrelevante, feita a apresentação".
Assim, de forma mais ou menos sinistra, Shamrock leccionava política internacional, coligindo estudos demográficos e rough guides para a paz. Era o intervalo para almoço e ninguém realmente ligava ao que ninguém realmente dizia. Pertenciam ao novíssimo esplendor na relva, um tracejado semicondutor sobre placas verdes telúricas, solda, juntas e isolamentos, marcando o regresso à arte antiga de trabalhar o boro e o fósforo. Não conseguia ver nada que pudesse chamar seu. A terra era uma nação estranha e mesmo os circuitos, apesar de mais estáveis, também cediam, regulados por contingências orgânicas e sujeitos à entropia decorrente dos episódios casuais de desnaturação. E vago, demasiado vago e indistinto de modelos experimentais, exercícios teóricos, formulações matemáticas e talvez contas de rosário. "Ouviste os discos do Sondre Lerche?" perguntavam-lhe de uma mesa contígua, naquela plataforma onde queriam que confraternizassem, tomassem café e eventualmente discutissem o cisma do povo hebraico. "As músicas têm demasiados acordes" - "É! O gajo não as deve conseguir tocar ao vivo" - "Pá não sei, talvez com uma banda de músicos de estúdio". Aquiescer, anuir e derivar. Reading, writing and arithmetics - o telemóvel não tinha mensagens novas.
Por vezes a matéria esgotava ou derivava (por ordem de chegada) e o resultado surgia sob a forma de um derrame de fonemas, porfiado numa espécie de urdus ocidental, variegado entre tons tristes, quase arraiolos, mas ainda em covent garden. Falava de si no espaço e tempo - oh clemência!, perorando indiferente à plateia, equilibrando-se em qualquer posição. Drunk at the pulpit mas sem beber, a finura de evitar cet obscur objet de la bourgeoisie - ouvir.
- Temos todos uma fé inabalável nas férias. É o último reduto.
[sorrisos]
- A sério! É o credo que trazemos na boca. Férias, férias, férias. Achamos que qualquer problema se resolve com férias, em férias e de férias.
[mais sorrisos, condescendência, ascendência e solitude]
Por um momento, Shamrock perdeu-se no plural, acontecia sempre que pensava numa estrutura pluridimensional tipo cubo. A desolação fê-lo regressar às extrapolações moduladas a partir de si.
- Foi um quebranto. Ainda está relacionado com profecias antigas e cenas messiânicas. Duzentos anos de férias se chegarem à Índia. Mais trezentos se entrarem em Ceuta em cima de um cavalo com a espada na mão. Tudo à conta.
Continuou alternando factos da história com impressões digitalizadas até já ninguém o ouvir. Era outra vez seguro: desenrolavam-se outras conversas.
A verdade perpassa, tal e qual o sake- um leve incómodo no final da refeição; como o saque- o longo instante a conciliar a privação. Serão os amigos eléctricos, questionava-se enquanto percorria os endereços no BlackBerry, no meio de Devon, fantasmas e políticas de expansão. Tinha encostado o carro alugado numa berma mais ou menos "segura", o friso de uma cottage garden, e fechado os vidros temendo as fragrâncias, chilreares e deterioração, já lhe bastando para tal o erudito estudo de viabilidade de uma pequena companhia aérea tailandesa. No fundo, tinha de fazer a peritagem a décadas de gestão danosa, submissão continuada e predomínio da maquinação sobre a moral e mesmo sobre a máquina. Eram milhares contas rasuradas, múltiplos esquemas de desvio de verbas, desperdício e iniquidade social, resumidas numa resma contínua de papel A4, profundamente printada, intensamente monótona. A semi valeta de uma estrada rural não seria, com alguma certeza, o local mais confortável para analisar contas e debitar cômputos por um telemóvel artilhado mas, até para a economia era necessária inspiração - in the mood for economics. Prosseguia remoendo a asneira de ter deixado o Power, Corruptions and Lies em Portugal, lamentando a falta do disco naquele momento, aborrecido com os weather forecasts dissimulados na música saída do auto-rádio; de qualquer forma o carro não tinha leitor de cds. A verdade perpassa, sabia, da leitura de mais um relatório, da substituição de variáveis por números, convertendo caracteres em carácter, morigerando os fundos de maneio até conseguir maneiras dignas. Shamrock ao entardecer, naquilo que fazia melhor, afastado do seu habitat, isolado e dentro de um carro, contrariado pela tecnologia, cingido pela electricidade e estática.
Shamrock corria como se não existisseum dia seguinte. Era a subtileza na motivação, o encontro em si. Na verdade, sabia da ausência, do “no future”, mas encarava tudo muito resumidamente e com formas não muito explícitas, acreditando piamente no dia depois, respeitando as diversas apresentações da alvorada. Desejava seguir até à incompreensão total, em estrita observância pelas regras da atracção, na pista de atletismo do Regent’s Park, de manhazinha, revendo mentalmente a lista do supermercado.
”I’m with the band”, “I’m with the band”, gritavam do outer circle, misturando drama com as exclamações incompletas dos ornitólogos e o coro das Toutinegras-de-barrete, o sempre complexo binómio observação-ilação, a vida selvagem nos canaviais. Assim, enumerando artigos de higiene e serviços mínimos de cozinha, a correr, como uma aplicação de DOS, visualmente básico e entrecortando a respiração com o espaço por minuto. Lâminas, espuma, ciclos, pulso e acção. Também tinha um capuz negro que se desprendia da sweater com a fórmula “Just do It”, tingido de vermelho o poliéster texturizado, escorrendo e terminando numas sapatilhas brilhantes, concebidas para pisos rápidos de tartan, igualmente céleres em pistas de cinza. O desígnio, a integração plena nos rituais modernos e demais aspectos da moral, mixing novidades pastorais com as habituais encíclicas para os medos, esmoídas, dispersos em borboto.
Wednesday, November 01, 2006
Blog Archive
Pedro Lago
- blogcinzel@gmail.com
- Coimbra - Viseu, Portugal