Friday, November 03, 2006

Filmes - Revisão

Carnival of Souls

"Nothing is "evil" in any ordinary sense. Everything is simply wrong."
transcrição de uma opinião no IMDB sobre o filme Carnival of Souls





A chuva
A decisão de sair para jogar basquet num dia de chuva torrencial é difícil. A mudança da hora e a volta do tempo sujeitam a vontade e acabo encostado ao sofá. Mais ou menos o desígnio gótico fate up against your will. E custa ainda mais quando vejo gente que ultrapassa as dificuldades cantando à chuva. Há dias vi o You'll Never Get Rich (1941, Sidney Lanfield com Fred Astaire, Rita Hayworth) e, finalmente, comecei a enxergar toda a agitação e alegria à volta dos musicais. Há uma dimensão mitológica destas películas que me passa ao lado. Não percebo as referências cruzadas em filmes que presto culto e os capítulos escritos em livros que venero, louvando o caminho de Fred Astaire e Ginger Rogers. Claro que agora, com a chuva, o horário de inverno e a descoberta do You'll Never Get Rich (ainda por cima, uma obra catalogada como menor), venha de lá o Top Hat e o Band Wagon para endireitar as coisas e tornar a vida mais justa num Domingo à tarde.

Como diz um amigo meu "Now all Beyoncés and Lucy Lius / And baby dolls get on the floor / You know what to do". E livrai-nos do Sam Peckinpah e de escrever um post sobre o The Getaway.





On the Waterfront
that On the Waterfront "was really a metaphorical argument" by Kazan and Schulberg: "They made the film to justify finking on their friends. Evidently, as Terry Malloy, I represented the spirit of the brave, courageous man who defied evil."

Supostamente, a forma como Marlon Brando justificou all the fuzz que circunscreveu On the Waterfront. Elia Kazan estava com problemas inter pars por denúncias ao comité de actividades anti-americanas.

Desta forma compreendo melhor o filme. Percebe-se que há um toque diferente no desenrolar da trama. A maior parte dos filmes desta Golden Age não pretendem transmitir nada. É apenas o filme pelo filme. Noir por Noir, exercícios estéticos ostensivamente vazios (é esse o objectivo, o truque), com vestígios e personagens subreptícias, mas sem mensagens ou subliminares morais de história. Existe um preâmbulo, um enredo e uma conclusão que ficam dentro do filme, consumidos no visionamento. É a verdade, são a verdade; e os meus filmes favoritos. Acabam é por não ser a realidade: Y'know that, women, never really faint, And that villains always blink their eyes, woo! And that, y'know, children are the only ones who blush! And that, life is, just to die!
O On the Waterfront é mesmo diferente e, provavelmente, existe uma força biográfica a mover a câmara. São os sinais da excessiva e deliberada vitimização de Terry que o denunciam. Joseph McCarthy sob a forma do dilema de Terry.

Before we get to where?
...
Take the job Terry! Please take it!
...
murmúrios
...

Charlie: Look, kid, I - how much you weigh, son? When you weighed one hundred and sixty-eight pounds you were beautiful. You coulda been another Billy Conn, and that skunk we got you for a manager, he brought you along too fast.

Terry: It wasn't him, Charley, it was you. Remember that night in the Garden you came down to my dressing room and you said, "Kid, this ain't your night. We're going for the price on Wilson." You remember that? "This ain't your night"! My night! I coulda taken Wilson apart! So what happens? He gets the title shot outdoors on the ballpark and what do I get? A one-way ticket to Palooka-ville! You was my brother,

Charley, you shoulda looked out for me a little bit. You shoulda taken care of me just a little bit so I wouldn't have to take them dives for the short-end money.

Charlie: Oh I had some bets down for you. You saw some money.

Terry: You don't understand. I coulda had class. I coulda been a contender. I coulda been somebody, instead of a bum, which is what I am, let's face it. It was you, Charley.





The Last Picture Show

Acerca do The Last Picture Show, o livro "Easy Rider Ranging Bulls - how the sex'n'drugs'n'rock'n'roll generation saved hollywood" refere-se ao esquema bogdanovitch'n'cybill'n'polly nos seguites termos "...um dia Polly encontrou-se a conduzir down a stretch of arrow-straight Texas highway entre Archer City e Wichita Falls numa carrinha Ford alugada...". Ameaçando de morte Bogdanovitch, levava a veloz viatura para a berma da estrada gritando "i'm going to kill us both!". Sem tradução o texto é assim "she swerved off the road into a ruttled, newly plowded field (...) she shrieked, as the car bounced over the furrows, ka-boom, ka-boom, ka-boom, until the hood flew up, and the car bottomed out in a cloud of red dust. They both burst out laughing."




Bullitt

Pouca gente resolveu tantos problemas em tão breve espaço de tempo como o detective lieutenant Frank Bullitt. Ao longo de 113 minutos (a acção prolonga-se por alguns dias) toda a encasinação, alvoroço e sobressalto é ultrapassada (mais mossa, menos mossa, mais amolgadela, menos amolgadela) percorrendo os altos e baixos da cidade.




Ordet

Eu não compreendia o cinema até ler João Bénard da Costa. Pode parecer exagerado, e de certa forma estilizado, mas foi a partir da leitura de "A Palavra da Ressurreição", escrito sobre o filme Ordet - A Palavra, que divisei um pouco da arte sob imagens em movimento.

Citando Sérgio do Arquivo Fantasma
Bénard da Costa escritor é um daqueles fenómenos que produz em mim uma ansiedade súbita, uma vontade de uma qualquer resposta superlativa, outro modo de admitir uma terrivel inveja perante a luz que se desprende dos textos...

Seguindo em citação
Os seus textos muitas vezes reflectem a sua fé, mas fazem-no sempre com uma discrição absoluta...

Quem, de entre os vivos, poderá não crer em Deus com tais exemplos do seu poder criador pulsando através do Homem?


Apenas posso acrescentar com palavras do texto que mais reverencio de José Bénard da Costa: "...tudo está na areia que escorre, na passagem das horas. "E então o tempo, sim foi coisa que passou". Só a Palavra e a Imagem o podem suspender assim. E, por isso disse S.Paulo que, maior do que a fé era o amor.
Ordet de Dreyer é o filme desse amor"

Pedro Lago