Friday, November 03, 2006

Manifesto

Norma de chegar

O comping da realidade.

Nunca este blog terá um sujeito que seja, em si, ele próprio. Nem alusões gratuitas ao persuit trivial, dilemas ou mesmo o raio que parte. Que parte para parte incerta no lado certo do espelho, logo errado da noite, a escrita a pique no momento zero, quando o jogo ainda está zen a zen, quando se chega a casa.

Loving/Living/Party Going (livro que reúne 3 obras de Harry Green), a divisa justa, a embarcação semasiologia, no fundo, o distinto estudo da linguagem. Passados sete anos a escrever sobre o momento de embarcar (para a Riviera), um século mais tarde alguém irá consumir duas décadas a preencher uma norma de chegada.




86

A tabela de basquete sobre a porta da garagem. Ou o mal menor. Ou a vivenda geminada.

Dizer que os limites do campo estabelecem-se pelo pesponto da idade é pouco para o meu desânimo (porque, efectivamente, já não consigo jogar). O título esteve para ser "um post sobre coisa nenhuma", corrigido para "um post a partir do zero", alterado para o "um post do nada", acabado em "86". Como o nível de flutuação da água no bojo de um barco (o Rakuyo): 60, 84, 86 e o 90 quase tão acima como o escovém da âncora*. Mais os cineplexs, o fenómeno metereológico da inversão de temperatura, a estupidez de não ter comprado o Horses da Patti Smith porque não me apetecia esperar na caixa registadora, a dispersão, tudo junto, num sábado à tarde solarengo, em que nem era para escrever um post, quando nem me apetecia emblogar.

Breve como a arte maior de dizer "vou ali incendiar uns carros, parece que assim resulta"**, ou a postalação (conjugando post e instalação), ou o tempo a decorrer constatando (acknowlodge myself, obrigado) que um dia as referências vão acabar. Um dia as referências vão acabar. Um dia as referências vão acabar - esgotado o assunto, restará a originalidade e não poderei escrever mais - e deixarei de retirar prazer da audição da Waterloo Sunset cantada pelo Elliott Smith ("dirty old river, must you keep rolling, flowing into the night / people so busy, make me feel dizzy"), serei forçado a admitir que o golf relaxa (especialmente a paisagem avistada do buraco 5) e, dividido entre o Evol e o Daydream Nation direi "daydream nation" (num cenário grotesco, pensarei "são a mesma coisa").

Bem, isto já é mais do que suficiente para a vaga na redação da Yale Review*** e outros dias virão com mais posts.

Índice de referências menos explícitas:
*citação de um livro
*citação de cor (as palavras podem não ser exactamente estas) de um blog
***outras publicações já estavam referenciadas pela blogosfera nacional




Wild Post

"Lá em hollywood que é para tudo rolar"

(via rádio; estação não especificada)

Nem mais nem menos. Um sujeito pela estrada fora e sintonizado é facilmente derrotado pela evidência. Vale a percentagem de cérebro ocupado com vulgaridades (faixas de rodagem, embraiagem, mudanças, espelhos, entre outros possíveis exemplos); porque se o sonho comandasse mesmo a vida, esse senso, essa anátema, então o centro da festa deslocar-se-ia para hollywood, cinecittà, pinewood e tobis (sempre fica mais perto). Provavelmente o fim seria a cedência de resistência e o mergulhar na onda - ride the wild surf.




Alive and Kicking

Das muitas milhares de músicas escritas sobre drogas eu gosto do you're in a bad way. Em três ou quatro penadas a Sarah Cracknell (não sei se terá sido ela a autora das lyrics) esgota o assunto com o eterno "Toast is burned, / and your coffee's cold, / and you leave all the post `cause it's nothing but bills again. / Home from work, / put the TV on. / Get your kicks watching Bruce on the old Generation Game / Just dial my number, / I've got some plans for you. / You're in a bad way / and I can help you through. / You're in a bad way, / every day is just the same. / Just dial my number / or call my name." Vendo bem as coisas, why pamper life's complexities quando o "ai Jesus que lá vou eu" resolve tudo, da mesma forma que o Jardel resolvia em 99, da mesma forma que as Shirelles cantavam em 59, da mesmíssima forma que o Musil escreveu a partir de 21. Um amigo meu diz que é tentando, erguendo uma barrage de fogo de metralhadora, que se acerta: atirar a tudo que mexe para um dia atinar com a solução. São estas as opiniões que valorizo e fincam o novo padrão dos descobrimentos numa galáxia perdida no tempo do século 21. Em vez de sombra, o marco pode projectar a indiferença e o whatever, seguindo os ensinamentos revolucionários dos idos de março de 44 a.C. A vida, com certeza, não gira em torno de contos de gin tónico e consta-se que, quando o charles manson sair da prisão, aí é que vai ser. Rewind, das muitas milhares de músicas escritas sobre drogas, gosto do Mario's Café, na medida cheia, descafeinada a partir das 4 da tarde e com o açúcar bem mexido. De preferência, enquanto leio os resultados das corridas de cavalos no Racing Post e vejo resumos de combates de boxe na televisão. Alive and kicking, mais kicking do que alive, porque um dia, ainda hei-de chegar ao café e perguntar: "então pah!, com'é'que foi ontem o concerto dos KLF?. Falar the Black Tape For a Blue Girl não é simplesmente a mesma coisa, e sugere-me mais um sinal de doença. "E depois logo se vê" é um disparate. Apetece-me primir o gatilho sobre a iniquidade social e discursos sobre bolos, em vez de estar no cantinho a contar segredinhos à amiguinha, esquecendo a geração beat, a ecologia e os milhares de anos de cultura que precederam os últimos milhares. É pena lançar de três pontos, falhar, não carregar sobre o ressalto e não vir defender porque, "whatever", que sera, sera, whatever will be, will be the future's not ours, to see. E devia continuar e deixar que a transpiração me levasse ao confronto social, tropeções e rises and falls in more than a decade. Mas este blog não é melhor que o país e a desigualdade acaba por ser apenas mais um tema de conversa; e eu já me perdi.




Death and Kicking
Da miséria. Uma breve asserção escrita a lápis, depois passada num teclado configurado para pt, sobre os vários passos da cadeia alimentar até chegar a Deus.
Compreendo o gosto pelo disfarce escrito do gin tónico, mas prefiro usar relepente quando chega à forma líquida ou à espécie ausente. Indecifrável "não?", porque albeight toda a filogenia, Langley Parks e materiais cromáticos, o que existe são intermediários dizimáticos, com enzimas humanas e transcrição genética de natureza duvidosa. Eu não me perdi (segundo os cânones forenses) e continuo no trilho estabelecido, cumprindo a obrigação de comer frango de churrasco pelo menos uma vez por semana (regra geral terça-feira ao almoço). O tempo da natureza passou, possivelmente há muito tempo, prevalecendo inteligências artificiais predadoras com tropismo humanu e tropotaxia pela anima, saprófitas, supra-australopitecos, naturalmente bípedes e de feições indestinguíveis dos traços normais desenhados pelo Criador. Interpostos entre Deus e o Homem, bloqueiam o embarcar das almas e interrompem o mundo que há-de vir, penando ad aeternum, roendo per semper. Se isto fosse a sério, espetava já a imagem do faraó na antecâmara, reunindo tudo o que podia deitar mão (e ele podia deitar mão a tudo), para o que desse e viesse, para o bem e para o mal, para hathor e para seteh. Porque mesmo a figura real estava atrapalhada e acabava por não perceber Maàt como um conceito de verdade, justiça e ordem (wikipedia dixit) em vez de uma figura onde se despejam jóias. E passados milhares de anos, continuam a não ser precisos adereços ou adornos na noite mais escura da alma. É a consciência que conta e essa foi de tal forma corporizada em vida, que se transformou numa matéria moldada por ultra-humanos avançados (julgam eles) à espécie. É uma chatice sermos inimputáveis, mas acredito em Deus, confio na inocência e sei que as contas no fim hão-de estar certas.
E quando gritam "destruam-se dois mil anos de cultura!", fico assustado, acho um disparate (até porque não chegava) e é necessário aproveitar e recuperar a alma, arte e engenho da humanidade. Não adianta chegar à estaca zero ou ao moinho de água porque a electricidade foi uma coisa boa que nos aconteceu e, hoje podermos viajar sem nos mexermos, é inigualável. Também existe beleza nos polímeros complexos e relembro a maldade contida na estrutura ultra-simples da bomba de hidrogénio. Etc...

O blog aguarda ansioso os dias de escrita bucólica e margens menos definidas.

Este post tem o mesmo título que o anterior. Compreendam que o prefixo "a" usado em "alive" tem a mesma força de negação que o "i" quando aplicado em "imoral".




Edição: "Let Alone Be Gone", Aqob

Encontra-se em streaming no site da editora (Womblabel), e podem-no encontrar na Louie Louie (Porto), Matéria Prima (Porto) e Carbono (Braga).

Hoje à tarde falávamos sobre estilo. É um facto bem conhecido que qualquer pessoa pode tocar guitarra (Anyone Can Play Guitar, Radiohead) e, da mesma forma, qualquer pessoa pode pegar em 3 ou 4 discos, remisturá-los e adiciná-los de uns pózinhos de softsíntese presetada (de preset). É, em si, uma arte que eu não discuto, mas suponho que o mundo da electrónica DIY já esteja saturado e inquinado de wannabies músicos, cuja noção de filtro segue para dentro da mortalha.
Este disco é diferente; estou à vontade para falar do assunto porque a minha participação foi ínfima. Existiu um processo criativo, de gênese por meios electrónicos, sintetizados, de um som único e individual. De música mesmo; um artesanato com máquinas, módulos criados e arranjados seguindo a emoção do artíficie.




Fado gregário

Recebo muita publicidade não endereçada. Tanta que justifica tirar um dia de férias para arranjar o tal autocolante imunizador. Aliás, o maior benefício da vida no campo é um decréscimo de 64% nos panfletos e outros papeis plastificados despejados na caixa do correio. Muito possivelmente o leilão do lote 49 (conferir W.A.S.T.E. e Trystero) lida com esta problemática, com este culto parnasiano (art for the art sake, publicitar por publicitar). Com boa vontade, até imagino, no quadro das mulheres bordando o manto terrestre, grandes promoções de chocolate e sofisticados artigos de higiene esvoaçantes pela janela pós-estruturalista (talvez tenha forçado um bocado). O ecosistema tem de ceder e anúncios com preços baratos e oportunidades únicas são motivos tão bons como outro qualquer. Todos os dias na Amazónia marcam uma árvore com o nome da minha rua, abatem-na e transformam a parede das suas células e fibras em papel enviado sem endereço. O principal motivo que impede o alvará de novos hipermercados é a insuficiência das caixas de correio: volumetricamente mal concebidas (demasiado achatadas), simplesmente não albergam as corpulentas resmas de papel com propaganda e publicidade. Mas tudo bem. Se calha de estar três dias sem esvaziar o correio (o que equivale a uma pequena desconcentração), deparo-me com o brilhante cenário das revistas que assino (= pago) abandonadas nas escadas da entrada do prédio; já as campanhas de verão dos supermercados localizados num raio de 100 km estão cuidadosamente depositadas na caixa do correio, com zelo e desvelo, salvas de pingos de lama e solas de sapatos. Mas isso sou eu que tenho de ter mais cuidado e perceber as idiossincrasias da urbe, compreender o fado gregário e aceitar a propriedade do senhor do marketing sobre a fracção privada.

Pedro Lago