Friday, November 03, 2006

O Ambiente

Biblioteca Geral

Há dias a frase "ofício de viver (a edição mais antiga)" recordou-me uma tarde numa biblioteca. Reparei no detalhe "a edição mais antiga" não por questões formais (completaram o diário na edição recente) ou de memorabilia-collector's item, mas pela impressão que fiquei da leitura da edição "antiga" desse livro sem consolo, num espaço desolado, perfeitamente antigo, ele próprio sem grande consolo e desproporcionado. Da mesma forma que o autor não se sentia designed for life, well suited or fit, o edifício também não era dimensionado para a minha vida.

Conheço 2 bibliotecas em Coimbra: a Municipal de que guardo as melhores sensações, agradável, "contemporânea" e onde requisitei grandes livros. E a Biblioteca Geral da Universidade onde fui UMA vez. Não passa de um edifício austero, maciço e sombrio. As paredes e os tectos, levantados até grande altura, enchem de frio e insignificância os visitantes (como em "That building’s so tall and it makes me feel so small, That I might get lost and simply disappear"). Lembro-me que, como o restante campus universitário, não contemplava a luz solar - mas provavelmente até tinha janelas enormes e clarabóias resplendorosas e era eu que estava de má vontade. E tinha demasiados livros. Prateleiras, estantes, as tais paredes levantadas a grande altitude, cheias de livros. Todas as pessoas e edifícios têm que saber quando parar; aquele sítio, por exemplo, devia ter deixado de aceitar livros, obras e afins (sem fim) em 1840. De qualquer forma, entrei e requisitei o livro que não existia na minha biblioteca municipal. O sistema de empréstimo era demasiado complicado, de modo que me sentei num dos seiscentos mil lugares vagos. Não admiro a obra de Cesare Pavese ao ponto de entrar em transe litúrgico: aquele livro, naquele edifício era insuportável. Nunca tinha interrompido a leitura fosse do que fosse por motivos de intolerância; muitas vezes por tédio, aborrecimento, sono, falta de tempo etc. Mas por não poder suportar o peso de um ambiente foi a primeira vez. Insustentável. Lembro-me de apagar um candeeiro (durante o dia ler com luz artificial é um contra-senso; a não ser que se viva na Islândia), verificar que o livro acabava mesmo como diziam que acabava, e ir-me embora para locais tropicais (o Samambaia ou o Tchandjae do outro lado da cidade).

Comprei a edição recente da Relógio d'Água (2004) e a experiência de leitura no sofá da sala decorreu sem complicações. Não houve intercorrências e cheguei ao fim sem problemas.




Eclipse

Perdi o eclipse da Segunda-feira que passou (perder é mesmo o termo que quero usar) mas tenho a ideia de já ter assistido a um fenómeno semelhante há meia dúzia de anos. Não percebo absolutamente nada de astronomia e posso estar a dizer uma grande asneira mas, efectivamente, passou-se qualquer coisa entre o sol e a lua quando estava a estagiar em Ljubljana, Eslovénia. E, como andava tudo com a paranóia de óculos e filtros para proteger os olhos, deduzo que terá sido mesmo um eclipse. Passou-se em 199? no verão em que os Blondie v2.0 arrasavam as disconights e a Britney Spears era mais ou menos uma novidade (o "hit me baby one more time" foi a primeira música que ouvi quando liguei um rádio). Nota: eclipse (zé dos) também é o nome do meu guitar-hero português e autor da grande obra do rock em pt "E Se Depois".
De qualquer forma, e a propósito do tal fenómeno sol-lua, recordei o mês sediado num campus universitário de um país que se pode considerar de leste. Instalaram-me num quarto (1/4) de apartamento bem porreiro, que dividia com um checo que tinha um caso com uma espanhola (denominada "Estrella Galicia" para efeitos de anonimato). O quarto dava para um campo de basket e foi nessa estrutura magnética que me posicionei para assistir ao eclipse. Deviam ser onze horas e estava sozinho (deixei-me ficar a dormir e a consequência foi a perda de toda e qualquer forma de transporte). Nova nota: nesta segunda-feira que passou (03/Outubro) falhei o eclipse porque estava a trabalhar - evidente sinal do tempo que passa por mim. Mas lembro-me que, durante o eclipse comungado em Ljubljana, não senti nenhuma alteração mística ou comportamental what so ever. O meu coração não parou; a minha imaginação não avançou mais do que o costume. Pelo menos, nada que se possa comparar a quando ouço o "Je Suis Triste et Seule Ici" do Pete Namlook ou à revelação na leitura do "The Secret Diary of Laura Palmer" da Jennifer Lynch. E por bem, venham de lá todos os eclipses, mas na forma do 2046s. Em conclusão, esse dia foi mais ou menos igual. Não posso falar de barreiras espirituais, mistérios ou outros decalques tempo-espaço. Não existiu uma Vida durante o eclipse, nem nada lhe sucedeu de diferente.

Leio agora que a palavra deriva de ékleipsis que significa abandono, desmaio. Pois. Pode ser. Mas prometeram que a natureza tremia, os animais recolhiam, os homens sentiam e continuou tudo mesma: meio eclipsado, meio embotado.

Pedro Lago