Friday, November 03, 2006

A negrito

E um dia, no alto da catedral de Gaudí,
chorei de horror da Queda, como os caídos anjos.

Fiama Hasse Pais Brandão, in Epístola para os meus medos




Nunca estive em Barcelona. E também não chorei quando, sobre a queda, percorri, no inferno de Kafka, o empedrado sinuoso da solidão. Estava muito cansado, mas isso seria das viajens e das ruas que insistiam em subir. Lembro-me do alívio sentido no bairro Judeu e de uma música primitiva tocada na praça. Formou-se-me a idéia que se caísse da parte alta da cidadela, rebolaria até ali, para junto da melodia, dos sons das pessoas a circular, das conversas, da vida. Recordo ter entrado nos escombros de uns edifícios que estavam para ser demolidos; reconheci a estrutura despojada de um bar ainda intacto, vazio e abandonado. Tinha divisões misteriosas, octagonais, que protegiam o interior: dissimulavam o cerne enredando oito arestas e entrelaçavam a sombra com sobreposições.

Pedro Lago