Friday, September 29, 2006

Genealogia do Fado

1.Definição

"uma dor que se reparte, não custa tanto a sofrer"
in fado "Lenitivo", letra de Fernanda Santos; edição em 1966


Muitos consensos, muitos propósitos, foram divisados entre o remoinho dos trinados e o rodado dos xailes. Que o destino*, levantado à vontade, continua a ser o próprio*.

*(definição, fado)




2.Demonstração

"tu, p'ra mim vens de carrinho..."

in fado "Chamou-me Louco", letra de Joaquim de Freitas; edição em 1957


O simbolismo, e toda a linguagem propulsionada pelo uso abstrato da representação na escrita, proporcionaram grandes momentos de poesia dos actos transactos (demonstração).




3.Reforço

Abençoada mentira, nunca me fales verdade / Abençoada mentira, nunca me fales verdade

técnica de repetição do verso no fado


O fado é tão centrado em si que não admite coro. Desconheço canções do cânon legítimo que contemplem a segunda voz (não se incluí, obviamente, a desgarrada), harmonizações ou outros formantes vocais. O reforço deriva sempre, o reforço deriva sempre, da repetição do verso, o mesmo pela mesma/o.




4.Resolução

"no céu, no mar andam escolhos",

João Linhares Barbosa, verso do fado Tia Dolores


É uma ousadia balbuciar meia dúzia de palavras sobre o poema inscrito. É ulteriormente sublime a exactidão da palavra "escolhos" (que não deriva de escolha) com a covalência do verso "se a gente segue o destino" - a resolução aplicada à matéria talhada.




5.Insistência

Há semanas que não sai nem uma gota. É o frio, o tempo quadriculado, os espasmos, tudo junto, queimado pela geada e estalado em versos esquinados: "fazia praça ali na horta seca, e morava na rua da atalaia". Com cautela, por conseguinte, insistindo na terminação.

Pedro Lago